10 de julho de 2016 por Gabriel Haguiô.

Há 16 anos atrás, em um longínquo e conturbado ano de 2000, o Reino Unido parecia viver seu apogeu musical. Em meio à icônica rixa dos dois maiores grupos de britpop da época, Oasis e Blur, e à constante ascensão de bandas como Radiohead e Travis, o que menos se esperava era o surgimento de um novo nome no cenário musical que pudesse competir e integrar o grande rol de artistas britânicos consagrados da época.

Eis que, no dia de 10 de julho daquele ano, uma banda até então desconhecida lançaria seu álbum de estreia e viria a mudar o estado musical do Reino Unido. Se todos acreditavam que a origem de um novo grupo de competência fosse uma ideia completamente descartável, o Coldplay manifestou a exceção e conseguiu surpreender o exigente público britânico com sua mistura convincente de melodias e arranjos melancólicos bem explorados com “Parachutes”.

“Parachutes” é o álbum de estreia do Coldplay e foi lançado no dia 10 de julho de 2000 pela Parlophone Records. O trabalho foi produzido pelo próprio grupo em parceria com nomes como Ken Nelson e Chris Allison e mixado por Michael Brauer

Até então, Chris Martin, Jonny Buckland, Guy Berryman e Will Champion já haviam lançado três EPs  —  sendo dois por uma gravadora independente, a Fierce Panda (“Safety” e “Brothers & Sisters”) e um por uma grande gravadora, a Parlophone Records (“The Blue Room”)  —  que davam o tom que a banda pretendia seguir com “Parachutes”: harmonias frias porém sentimentais combinadas com letras envolventes que facilmente abriam espaço à comparações com a musicalidade macambúzia do Radiohead e pareciam refletir diretamente as emoções perturbadas de quatro jovens estudantes londrinos do final da década de 90.

As gravações de “Parachutes”, contudo, não foram fáceis para Chris Martin e companhia (“nobody said it was easy”, não é mesmo?). Inicialmente, a banda se disse insatisfeita com os resultados de suas sessões com Chris Allison, uma vez que o produtor procurava impôr sua opinião em relação aos frutos que o grupo colhia, levando à sua substituição. Ken Nelson, então, assumiu o posto e pareceu levar o quarteto à novos horizontes com sua filosofia de liberdade criativa.

Mesmo com três extended plays na bagagem, o Coldplay ainda não havia conseguido levar seu nome para as paradas musicais britânicas  —  na época, dominadas por grupos norte-americanos como All Saints, Backstreet Boys e N’Sync  — , carência esta que mudou com o lançamento de seu primeiro single, “Shiver”, no início de março de 2000.

O falsete anestesiador de Chris Martin combinados com a guitarra marcante de Jonny Buckland rapidamente conquistaram os ouvidos britânicos, rendendo à banda sua primeira aparição na televisão pela MTV e uma 35ª colocação na estreia da faixa na parada de singles do Reino Unido. “Shiver” logo solidificou a expectativa pelo lançamento de “Parachutes” e tornou o nome “Coldplay” conhecido em toda a terra da rainha.

Com o modesto crescimento do sucesso do Coldplay e seu estabelecimento como um dos “artistas revelações do início do milênio” (ao lado de bandas que viriam a escalar o Monte Olimpo da indústria fonográfica ao desenrolar da década junto ao grupo, como Muse e Maroon 5  —  que ainda adotava o nome “Kara’s Flowers” em seus trabalhos na época), “Parachutes” foi bem-recebido pela crítica e teve um bom desempenho comercial no Reino Unido em seu lançamento.

Em sua semana de lançamento, “Parachutes” alcançou o topo da parada de álbuns mais vendidos do Reino Unido ,  feito este viabilizado pelo progressivo sucesso de suas canções em pubs, clubes britânicos e eventos esportivos  , conferindo à banda cerca de 2,4 milhões de unidades vendidas e sete certificados de platina pela British Phonographic Industry até fevereiro de 2004. Todavia, o trabalho chegou aos Estados Unidos apenas em novembro de 2000, conquistando dois discos de platina via Recording Industry Association Of America e uma singela estreia na 51ª colocação da Billboard 200

“Parachutes” prontamente caracterizou-se por sua profundidade melosa sobre composições de amor e vulnerabilidade, assim como ocorre em diversas músicas do disco em consequência de múltiplos elementos sonoros, tais como a desmedida soturnidade de “Sparks” e “We Never Change” e o teor reflexivo assumido em canções mais diretas e curtas, como a faixa-título “Parachutes” e o abre-alas “Don’t Panic”.

Graças ao tom frio e inseguro alcançado pela voz de Martin e um tratamento instrumental menos enérgico e mais contemplativo por parte de Buckland, Berryman e Champion  —  mas que, na época, passou a impressão de inexperiência do conjunto  — , “Parachutes” consegue reforçar suas canções com um tempero sentimental. Mesmo a forte euforia musical dos singles “Shiver” e “Yellow” são capazes de emanar a paixão e a periculosidade trazidas pela juventude da banda, além da desolação adquirida em torno de faixas como “Trouble” e “High Speed”.

É por meio do convênio de suas letras frígidas e sobrecarregadas emocionalmente com sua musicalidade profunda e simplória — de constante oscilação entre a certeza e a insegurança, o tranquilo e o triste, o íntimo e o público — que “Parachutes” conquista seu lugar ao sol. A maneira que o Coldplay retrata suas composições apaixonadas no trabalho surpreende ao desviar de clichês usualmente reiterados em tal tema e por sua transparência sentimental, fortalecendo a ideia de “obra-prima do auge da puberdade britânica dos anos 2000”.

Devido à sua recepção crítica e ao seu grandioso destaque mundo afora — que acarretaram em uma tímida turnê de 39 apresentações em pequenos clubes britânicos e estadunidenses por cerca de dois anos  — , “Parachutes” foi premiado multiplamente. O disco conquistou o BRIT Award de “Melhor Álbum Britânico” de 2001 e o Grammy Award de “Melhor Álbum de Música Alternativa” em 2002 sobre nomes como Radiohead, Björk e Robbie Williams, tonificando o status de sucesso global da banda.

Até os dias de hoje “Parachutes” é considerado como um dos melhores trabalhos de estreia da história da música  — sendo citado nas listas de “100 Maiores Álbuns Britânicos” (publicada pela revista NME em 2006) na 33ª posição e de “100 Maiores Álbuns de Todos os Tempos” (organizada pelo canal televisivo Channel 4 em 2005), onde figura na 14ª colocação  — , representando o pouso forçado de paraquedas da que viria a se tornar a maior banda britânica da atualidade. Se por um lado a timidez e a simplicidade trazidas reforçavam uma previsão de sucesso passageiro, em contrapartida o Coldplay conseguiu transformar sua água em vinho em meio à grandiosidade de seus trabalhos futuros. Nós agradecemos.

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