A sequência do aclamado projeto do trio dá ainda mais força ao encontro entre o grime e a música brasileira

O desarme de Chicão em Eden Hazard não é mais uma mera foto. O registro da final do Mundial de Clubes de 2012, em que o Corinthians se sagrou campeão sobre o inglês Chelsea, estampa a capa de “BRIME!” (2020), o já clássico projeto dos rappers Febem e Fleezus com o produtor CESRV. O recado é claro: além de exaltar o time do trio, o Brasil estava assumindo o grime da Inglaterra e o repensando em seus próprios termos.
O brime também deixou de ser somente um estilo e se tornou um marco na sonoridade e na estética da cena hip-hop. Os “bailes do brime”, como são chamados os shows em conjunto do trio, tornaram-se celebrações grandiosas pelo Brasil e reúnem multidões para celebrar as canções do EP e de sua versão deluxe, lançada em 2023. Quase três anos depois, os artistas retornam com um trabalho de seis músicas inéditas muito aguardadas pelo público, e dão sequência a um movimento que já se prolonga por seis anos.
Febem, Fleezus e CESRV não adicionam apenas um ponto de exclamação a mais em “BRIME!!” (ou “Brime 2”, como devem chamar os fãs). Mais habilidosos e maduros, os três paulistanos dão um retoque especial às novas canções, e usam de sua química para retomarem um dos projetos mais autênticos e empolgantes da música nacional na atualidade.
O brime se tornou um fenômeno pelo casamento perfeito entre dois universos que dialogam constantemente entre si. O gênero que Febem, Fleezus e CESRV encontraram mescla o estilo britânico do grime com um rap essencialmente brasileiro, das batidas de funk até as rimas sobre a realidade que cerca a periferia do país. As vivências das ruas, a cultura futebolística, os bailes e os romances são alguns dos temas que cercam esse mundo e constroem a ponte entre São Paulo e Londres.
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Depois de Chicão e Ronaldinho, desta vez é Zagallo, o único tetracampeão da Copa do Mundo, quem estampa a capa icônica de “BRIME!!”. Mais experientes e sagazes como o Velho Lobo, o trio retorna mais afiado do que nunca em mais um gol de placa.
O trabalho começa com “M.P.B.”, faixa em que questionam as definições de “música popular brasileira” e a inclusão dos ritmos periféricos dentro do gênero. O tom político em defesa das comunidades é alto e claro ao longo de todo o projeto. Em “Maduro Tech-Fleece”, o trio evoca a imagem da captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro para debater sobre o comunismo e a justiça social, temas que são comuns em suas carreiras solo, mas jamais haviam sido tão expostos em um projeto em conjunto.
A produção de CESRV, como não é novidade, segue irretocável. As batidas estão mais criativas do que nunca e destacam o lado mais inventivo do DJ. Em canções como “Meu Bairro Não Tem Airbnb” e “Tem Uma Sexta Na Minha Quarta”, o grime e o drill se encontram com o funk e a música eletrônica em produções enérgicas.
Febem e Fleezus também continuam a destilar sua sinergia nas rimas e nos flows. Enquanto Febem desenha as ruas e os bailes em versos sempre certeiros, Fleezus rima e também mostra seu lado mais melodioso nas novas faixas, acrescentando a harmonia do funk aos refrões de maneira muito interessante. “São Paulo Aquariana” talvez seja a música que melhor resuma a dinâmica — e não à toa, também a que tem o maior potencial de sucesso.
Em alguns momentos, as canções podem não soar exatamente como uma novidade, levando em conta os lançamentos anteriores e a temática das composições. No entanto, ainda é refrescante ouvir ao trio explorar ângulos inéditos de um mesmo estilo que une diferentes mundos.
Com “BRIME!!”, Febem, Fleezus e CESRV celebram o auge de suas carreiras com um projeto que não é mais somente um experimento ou uma descontração. As novas músicas são mais ousadas e criativas, e aproveitam o que há de melhor na química do trio para dar ainda mais força a um movimento que caminha pelas ruas do Brasil com vida própria. O baile vai ficando cada vez maior.
Nota: 8 / 10






