Entenda de onde vem o lucro de um dos palcos mais cobiçados da música atualmente

Há alguns anos, o palco do Halftime Show do Super Bowl tornou-se um dos mais valiosos para os artistas da música, mesmo sem compensá-los com cachê. Para além da decisão do campeão da NFL, o evento funciona como uma vitrine para a música mundial, gerando grande impacto em números e relevância aos artistas responsáveis pelo aguardado show do intervalo.
A grande decisão deste ano acontece neste domingo (8) no Levi’s Stadium, na Califórnia. Quem sobe ao palco para a apresentação musical é ninguém menos que Bad Bunny, trazendo um repertório recém vencedor de “Álbum do Ano” no Grammy 2026. A presença do porto-riquenho com o disco “DeBÍ TiRAR MáS FOToS” nesse evento promete ser um grande marco cultural e, até mesmo político, em um momento de conservadorismo crescente nos Estados Unidos.
Apesar dos shows terem cerca de 12 a 13 minutos de duração, eles contam com uma produção de grande porte que desperta curiosidade de quem assiste. Uma das principais delas é: qual o cachê dos artistas? É comum pensar que uma responsabilidade como essa venha com um cachê generoso, porém, não é assim na prática.
Mas, por que isso acontece? A National Football League (NFL) se encarrega dos gastos de produção e logística para que o show aconteça, custos que podem chegar a U$15 milhões. Por essa razão, os artistas não recebem pagamento direto pela apresentação em forma de cachê e, em algumas ocasiões, precisam até mesmo investir dinheiro do próprio bolso.
O Sports Illustrated confirma que há um pagamento simbólico do valor mínimo estipulado pelo sindicato no país. Usher, por exemplo, recebeu $671 pelo show de 2024 no evento. O portal também estima que The Weeknd teria gasto cerca de $7 milhões do próprio dinheiro para palcos mais elaborados em sua apresentação de 2021.
Neste ano, a Roc Nation confirmou que os investimentos de produção para a apresentação de Benito já ultrapassa os U$50 milhões.
A premissa da NFL é simples: o pagamento é a exposição e alcance que os artistas recebem em retorno. Durante cerca de 13 minutos, os Estados Unidos e grande parte do mundo voltam os seus olhares para o evento esportivo mais assistido mundialmente. Segundo a Reuters, em 2025 a audiência média do jogo foi de 127,7 milhões de espectadores, com um pico de audiência em um único minuto de 137,7 milhões de pessoas.
O evento ao vivo com maior público da história da música foi o show de Rod Stewart na Praia de Copacabana, no Réveillon de 1994. O show gratuito reuniu mais de 3,5 milhões de pessoas durante a virada do ano, com estrutura elaborada e projeção internacional.
Em 2026, o valor que uma marca deve pagar para um anúncio durante o comercial do Super Bowl é de $10 milhões por 30 segundos. O valor é estabelecido não somente pelo tempo de tela concedido, mas principalmente pela oportunidade rara de ocupar um espaço em um dos eventos com maior audiência ao vivo simultânea atualmente.
A mesma lógica se aplica aos artistas convidados para o Halftime Show. O esperado é que os envolvidos observem um aumento no número de reproduções das músicas nas plataformas digitais e na quantidade de ingressos vendidos dentro de uma semana após o Super Bowl.

Entre polêmicas sociais e políticas envolvendo a NFL, seus jogadores e os trabalhadores envolvidos nesse evento grandioso, o Super Bowl teve seus momentos de declínio e recuperação de popularidade. Uma das estratégias traçadas para essa reestruturação foi o contrato firmado com a Roc Nation em 2019.
A empresa de Jay-Z entrou na jogada para cuidar da curadoria dos shows do intervalo e comandar projetos de justiça social voltados, principalmente, à pautas raciais. O empresário se comprometeu a manter a conexão cultural acurada entre o headliner escolhido a cada ano e o evento, promovendo escolhas relevantes tanto pela ótica do showbusiness como também de uma ótica social.
Não é atoa que a escolha de Bad Bunny em um momento crítico das políticas imigratórias dentro do país gerou reação negativa de uma minoria pelas redes sociais. Mesmo assim, Jay-Z sustentou a decisão e brevemente defendeu o artista: “Eles o amam. Não deixe que enganem vocês”, disse em vídeo gravado pelo TMZ.
Desde o momento em que foi anunciado como a grande estrela do Halftime Show, em setembro de 2025, Bad Bunny já sentiu os impactos. Segundo a Luminate, empresa fornecedora de dados da música, logo após o anúncio, o catálogo do artista apresentou um salto de 26% no número de reproduções em plataformas de streaming nos Estados Unidos.
Seguindo o padrão dos anos anteriores, a tendência é que esses números cresçam exponencialmente após a performance. A Luminate afirma que Rihanna obteve um aumento de 1.140% em streams, incluindo 62 milhões de streams apenas no fim de semana do Super Bowl, em 2023.
Usher, por exemplo, chegou a faturar mais de U$52 milhões em vendas de ingressos, reproduções e novos contratos após se apresentar em 2024, segundo dados da Apex Marketing Group.
O mesmo impacto positivo aconteceu para Kendrick Lamar em 2025. Ele foi o primeiro rapper a entregar um show solo no evento em um dos momentos mais prósperos de sua carreira. Os dados da Luminate mostram que “Not Like Us” apresentou um aumento de 430% nos streams no Spotify, com 10,4 milhões deles concentrados na segunda-feira após o Super Bowl, além de alcançar o topo do ranking global da plataforma.
Mesmo antes da Roc Nation entrar em cena, no entanto, o impacto do show já era alto. Em 2012, Madonna teve seu maior aumento em vendas digitais da música “Like a Prayer”, com crescimento de 2.437%, além de um salto de 1.597% em vendas de “Music (feat. LMFAO)”. Os dados são da Nielsen Music.

A cada ano, o Halftime Show se consolida como um dos espaços mais valiosos da indústria musical justamente por transformar poucos minutos de performance em impacto duradouro para a carreira de um artista. Mesmo sem pagamento direto, a exposição global, o fortalecimento da imagem pública e o crescimento imediato em streams e vendas fazem com que o retorno financeiro e cultural se torne mais valioso que um cachê tradicional.
É por isso que, ano após ano, o show do intervalo do Super Bowl segue sendo um dos convites mais cobiçados da música. Trata-se de um marco de carreira diante de uma audiência que poucos palcos no mundo conseguiriam reunir simultaneamente.
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