Preparados para a I Wanne Be Tour? Bom, o Dead Fish está e promete integrar...

Preparados para a I Wanne Be Tour? Bom, o Dead Fish está e promete integrar todas as gerações presentes na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, neste sábado (23). A banda, uma das primeiras referências do hardcore no Brasil, propõe um show que celebrará sua clássica discografia entre “Sirva-se“, de 1997, a “Labirinto da Memória“, de 2024.
De punk-emo a hardcore, o festival, que está em sua segunda edição e acontece nos dias 23 de agosto, em Curitiba; e 30 de agosto, em São Paulo, no Allianz Parque, reúne um público diverso, que passeia tanto nas gerações anciãs quanto nas mais recentes.
Por isso, o trabalho do Dead Fish será de mesclar seus antigos trabalhos com os atuais e, assim, convidar o novo público a conhecer a obra da banda e a embalar os já conhecedores do Dead Fish em uma setlist à altura do festival.
Em entrevista ao Tracklist, Rodrigo Lima, vocalista e fundador da banda, revelou detalhes dos preparativos para a apresentação na I Wanna Be Tour, além de refletir sobre a relação arte e política.
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A gente tem aí a I Wanna Be Tour. Gostaria de saber dos preparativos e o que vocês planejam trazer pra setlist do show?
Ó, a Wannabe Tour é um convite que a gente tá muito lisonjeado, porque é um convite que perpassa outra geração que não a nossa. E a gente tá sendo convidado pra falar pra essa rapaziada, então a gente tem que ter um setlist que fique à altura. A gente vai fazer uns ensaios, e apesar estarmos muito focado no “Labirinto da Memória”, que é o último álbum, a gente tem que colocar umas coisas das antigas — principalmente do álbum “Afasia“, que eu acho que é o álbum onde essa molecada tava começando a ouvir música. Do emo, né? Enfim, eu acho esse álbum muito representativo pra esse recorte geracional deles, então acho que a gente tem que dar mais atenção a isso, a esse álbum.
Muito se fala da geração atual que escuta punk e hardcore, mas que, querendo ou não, é nova e com novas percepções. Como vocês buscam dialogar com essa galera e tentar sempre integrá-la às músicas antigas e recentes de vocês?
Eu acho que o Dead Fish nunca ficou muito parado no tempo. Apesar da gente ter aquela estética muito rígida musical, que é o punk e o hardcore, a gente conseguiu transitar verbalmente e sonoramente durante essas décadas todas, essas três décadas. E posso estar exagerando, posso estar valorizando demais a minha… minha expressão de arte e de música, mas a gente sempre teve um olhar muito observador pros momentos. Tanto que você olha lá atrás: os meus álbuns ao vivos, eles têm um recorte de momento muito importante. “Afasia” tem um baita recorte de momento. Eu acho que isso atrai novas gerações.
Os caras mais velhos foram indo pro fundo do salão, ficam mais no fundo, e a molecada mais na frente. As nossas pautas são pra todos. O nosso discurso, eu acho que é pra todo mundo parar, ouvir, refletir.
A 1ª edição do festival aconteceu ano passado. É claro que o movimento e a música hardocre e punk nunca perderam força, mas com esses tipos de festival é possível chegar a novas pessoas e marcar território. Como vocês veem a cena atual do punk, por exemplo?
Eu sempre fui um baita otimista quanto ao punk e o hardcore. Sempre tive minhas críticas muito fortes quanto ao Rock’n’Roll, que eu acho que, em grosso modo, no Brasil envelheceu mal. Acho que em outros países também. Mas o punk radical sempre foi muito curioso, sempre discutiu algumas pautas que estão sendo discutidas hoje — a gente discutia nos anos 90. Então tem pautas que hoje essa geração Z tá falando, e tá sendo taxativa e conseguindo fazer acontecer, que a gente começou a discutir lá atrás. Então é legal. A gente viu muita coisa boa florescendo.
E eu, pessoalmente, acho que o punk e o hardcore brasileiro precisa ter uma memória. Ele já tem uma baita memória, mas essa memória precisa ser contada, vista, ouvida. E eu acho que festivais como esse, que chamam bandas trintonas como a minha, estão fazendo esse papel. Não que só um festival vá fazer esse papel, mas é importante ter um festival grande como esse dando essa abertura de falar da nossa história.
“Labirinto da Memória” é o ultimo álbum do Dead Fish. Depois de um ano e meio de lançamento, como vocês veem esse trabalho hoje em dia e o que vocês percebem que tem de diferente dos trabalhos anteriores?
Nós lançamos um álbum anterior chamado “Ponto Cego“, que foi um álbum que teve muito impacto. Foi um álbum pré-pandêmico, em 2018, com a vitória do neonazismo à brasileira para presidente da república. E a gente veio depois com uma proposta diferente, que é o “Labirinto da Memória”, que é justamente falar não só sobre a pele, sobre a derme do que estava acontecendo, mas ir um pouco mais a fundo.
E internamente algumas pessoas acham que o álbum não funcionou. Eu, ao contrário, acho que esse álbum vai ter muito mais sobrevida, daqui a 20 anos eu vou ser lembrado, do que o álbum anterior, que teve um impacto brutal, que é “Ponto Cego”.
A banda sempre foi muito política e nunca deixou de reafirmar seus posicionamentos e os valores que defende. Como vocês enxergam o cenário político atual e o que consideram mais urgente abordar nas músicas?
Cara, eu não quero cagar regra pra ninguém. As pessoas podem falar do que elas quiserem. A arte é pra isso. Mas as pessoas precisam ter uma postura de, falando do que quiserem: de amor, de política, de sexo, de bens materiais, elas têm que ter uma postura antifascista.
Porque o fascismo odeia a arte. O fascismo odeia a música. O fascismo usa essas estruturas.
E o fascismo que eu digo é a direita brasileira, a extrema-direita brasileira, Então nós, como artistas, desde sempre, não é desde agora que o fascismo ganha esse destaque nessa supercrise do capitalismo tardio mundial, é desde sempre.
Então é isso. Eu acho que, falando do que eles falaram, a gente tem que ter sempre uma postura antifascista, com paradoxos ou sem paradoxos, mas é sempre muito importante isso ser citado.
O festival, ainda que traga o line-up mais emo, ainda apresenta vocês do gênero hardcore. O que cês pensam dessas inserções de diferentes gênero em um mesmo evento? O que tem pra aprender quanto a isso?
A raiz é a mesma, sabe? Cada um conseguiu ali falar do que tocava eles naquele momento. Eu tive muito tempo lá atrás e eu não conseguia entender por que o emo estava falando daquilo, por que o emo estava abordando aquela estrutura. E agora acho que entendo, sabe? Vendo de fora. Eu acho que é uma geração que viveu a tensão da internet.
Que viveu a ultraviolência sendo vivida o tempo todo, a falta de perspectiva. Eu acho que o emo é uma coisa que não pode ser descartada do cenário, do léxico punk-hardcore. E eu fico muito feliz da generosidade deles serem tão gregários e chamarem uma banda que é 12, 15 anos mais velha do que eles pra estarem ali dividindo a energia desse festival.
Agora uma curiosidade. Vocês colaboraram com o Fresno em 2024 e eles também vão se apresentar no I Wanna Be Tour. A gente pode esperar um encontro no palco? O que vocês podem antecipar sobre o show também?
Encontro no palco, eu quero muito. Eu gosto muito do Lucas, gosto muito dos meninos. Então, espero encontrá-los. Vamos ver se a gente consegue, porque dentro de festival parece que tá todo mundo ali sentadinho esperando, mas às vezes tem um correndo pra cima ou pra baixo. Vamos ver se rola.
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