Entrevista: Blue explica significado de nova faixa, “Não Ando Muito Bem”

Single foi lançado na última terça-feira (7)

Foto: Divulgação/@mariapaulafreire

A cantora Blue lançou, nessa terça-feira (7), a canção “Não Ando Muito Bem”. Para a artista, a faixa representa um recomeço: composta em um período de afastamento da música, ao mesmo tempo em que traz uma atmosfera nostálgica e resgatando memórias da adolescência.

Em entrevista ao Tracklist, Blue explica o significado da faixa, como ela se relaciona com sua vida pessoal e adianta novidades de sua carreira, incluindo um novo EP que será lançado em breve.

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Entrevista: Blue

“Não Ando Muito Bem” nasce de uma vivência muito íntima, mas também reflete um sentimento coletivo de exaustão e recomeço. Como você enxerga essa identificação entre a sua história e a de tanta gente da sua geração?
Eu acho que a minha geração aprendeu a parecer bem o tempo todo, mesmo quando não está. “Não ando muito bem” nasceu num momento em que eu trabalhava em loja, e nas voltas pra casa eu queria escutar algo que me abraçasse. Daí nasceu tanto a “Não Ando Muito Bem”, quanto o EP, porque eu precisava dessa música, sabe? Tem uma certa liberdade em admitir a vulnerabilidade. Acho que muita gente vive esse cansaço emocional, essa vontade de recomeçar, mas sem saber por onde. Então quando eu canto sobre isso, não é só sobre mim, é sobre todos nós tentando respirar no meio do caos.

    O clipe foi filmado de forma independente nas ruas e no metrô de São Paulo. O que te moveu a transformar esse cenário cotidiano – muitas vezes cinza e solitário – em algo poético e cheio de significado?
    Quando eu tinha uns 18 anos, coloquei na cabeça que precisava me mudar pra São Paulo, porque eu acreditava que lá minha vida de artista iria acontecer. Morei por seis meses e vivi muito da cidade, os contrastes, as madrugadas, as solidões no meio da multidão. Além disso, “Não ando muito bem” nasceu lá, então fez muito sentido voltar pra gravar nesse cenário. São Paulo tem essa coisa de ser ao mesmo tempo sonho e exaustão, movimento e fuga, e eu queria mostrar isso.

      O clipe foi feito de forma totalmente independente pelos meus amigos de São Paulo, o Victor Lisboa assinou a direção e a fotografia, e o João Portugal foi o primeiro assistente de câmera. Acho que esse afeto por trás das câmeras também ajudou a transformar o que é comum em algo simbólico. Era sobre encontrar beleza até nas partes cansadas da cidade e da gente.

      Blue, você já escreveu para grandes nomes da música, como Glória Groove, Jade Baraldo, May & Karen e Lukinhas. O que muda quando a composição é para outro artista e quando a música nasce de um lugar tão pessoal quanto esse novo trabalho?
      Tive o privilégio de escrever para artistas que admiro muito, algumas canções já conhecidas pelo público e tantas outras ainda nem foram lançadas, mas que já me trouxeram muita bagagem e experiências incríveis. Adoro ver a interpretação de grandes amigos e de pessoas que admiro cantando o que escrevo, é uma sensação muito especial.

        O single abre os caminhos para um novo EP, que já está gravado. O que você pode adiantar sobre a sonoridade e os temas que amarram esse projeto?
        Esse EP é uma conversa comigo mesma. Fala sobre vulnerabilidade, desejo, autossabotagem, aceitação… sobre tentar se entender no meio do caos. As músicas nasceram de momentos muito sinceros, então tudo é muito verdadeiro.

          Na sonoridade, feita pelo meu produtor Saudade, eu quis misturar referências do rock, mas mantendo essa atmosfera íntima e emocional que tem em “Não ando muito bem”. É um trabalho feito com muito cuidado, mas sem tentar disfarçar as imperfeições, porque elas também contam parte da história.

          A campanha dos “Bluegadeiros” viralizou e virou um símbolo do seu corre artístico. Além da ajuda financeira, o que essa ação representou pra você em termos de propósito e reconexão com o público?
          Os “Bluegadeiros” foram muito mais do que uma campanha, foi uma aventura (risos). Eu me diverti muito nesse processo, saí vendendo doce, trocando ideia com gringos na Zona Sul do Rio e até cantei Alcione para as pessoas em um bar! Foi um caos bom, sabe?

            Mais do que levantar grana, foi sobre me reconectar com as pessoas e lembrar do porquê eu faço isso tudo, lembrar de quando eu vendia doce pra pintar meu cabelo e outras coisas mais. Teve improviso, teve perrengue, teve risada… e no fim das contas, deu certo.

            Você vem de Realengo, um território que imprime muita força e verdade nas histórias que nascem dali. De que forma o subúrbio do Rio ainda pulsa nas suas letras e inspira sua estética musical?
            Ter nascido e crescido em Realengo me trouxe, além de muita bagagem, um olhar diferente sobre o cotidiano. Tem coisas que são do subúrbio, sabe? Minha mãe ouvia muito gospel, meu pai sertanejo, minhas vizinhas pagode… eu cresci ouvindo estilos diferentes e sou muito grata por isso, porque acabou me dando referências únicas tanto pro meu som como artista quanto pra minha capacidade de criar para outras pessoas.

            Eu não queria ter nascido em outro lugar. Realengo faz parte de mim e eu quero sempre poder agregar mais pro meu bairro.

            Sua trajetória mistura dor, coragem e criatividade. O que significa pra você esse retorno agora – é um renascimento artístico, uma continuação ou uma nova versão da Blue?
            Esse retorno é, com certeza, um renascimento. Eu estava no zero absoluto. Eu tinha me afastado da música, parado de cantar, parado de sonhar. Voltar agora, pra mim, é como ressurgir com outra força, mais sinceridade e sem medo de mostrar minhas questões e dilemas. É nascer de novo, carregando tudo o que aprendi no silêncio.

              É tipo eu sendo o bebê do “Nevermind” [álbum da banda Nirvana], jogada de novo na água pra aprender a nadar (risos). E eu espero que, de alguma forma, essas músicas toquem as pessoas.

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