Após mais de quatro décadas de uma trajetória que ajudou a colocar o metal brasileiro...

Após mais de quatro décadas de uma trajetória que ajudou a colocar o metal brasileiro no mapa mundial, Andreas Kisser e o Sepultura se preparam para uma despedida histórica com a turnê “Celebrating Life Through Death“. Entre os compromissos finais, a banda faz sua estreia no Lollapalooza Brasil 2025.
O grupo de heavy metal, formado por Kisser (guitarra), Derrick Green (vocal), Paulo Xisto (baixo) e Greyson Nekrutman (bateria), se apresenta no terceiro e último dia de evento – 30 de março, domingo – como headliners do palco Mike’s Ice.
Em entrevista ao Tracklist, o músico refletiu sobre a importância desse momento, o legado que o Sepultura deixa para o metal e o que vem a seguir após o fim da banda. Andreas também comentou a escolha do setlist para o Lolla, a diversidade do festival e até a possibilidade de um futuro retorno. Confira a conversa completa abaixo!
O Sepultura tem uma trajetória marcada por grandes festivais ao redor do mundo, mas essa será a primeira vez no Lollapalooza Brasil. O que essa estreia representa para a banda, especialmente em um momento tão significativo como a turnê de despedida?
É sensacional! E é a primeira vez, realmente, que a gente se apresenta no Lolla, não só no Brasil, mas na Argentina e no Chile também. E é isso que você falou mesmo, é um momento muito representativo, especial, em uma turnê de despedida, de celebração de 40 anos. Fazer, pela primeira vez, um festival assim… Quando anunciamos a turnê de despedida, falamos que queríamos realmente realizar nossos últimos desejos, né? Como se fosse realmente a última oportunidade de fazer esse tipo de coisa. O Lollapalooza foi uma dessas possibilidades.
A gente está indo para a Islândia pela primeira vez em julho. Também fizemos Honduras pela primeira vez recentemente. Agora, Singapura. Enfim, vários momentos assim estão acontecendo somente nessa turnê, né? O Lollapalooza é mais um deles, muito especial por estar no Brasil também, pela gama de artistas tão diversa que está no line-up do festival. E muito feliz por representar o heavy metal em um festival como esse.
O festival, aliás, tem um público diverso, com muitos jovens que talvez nunca tenham visto o Sepultura ao vivo. Como vocês pensaram no setlist para essa apresentação?
Vai ser um show do Sepultura. Gostem ou não [risos]. Como é que a gente vai se adaptar para o fã, né? Qual fã que a gente vai escolher ali dentro de, sei lá, quantas… 60 mil pessoas? 50 mil? Não sei quantas pessoas, mas enfim. Não dá para fazer um setlist de acordo com o fã ou com o perfil do festival. Tanto é que o festival convida uma banda como o Sepultura para ser o Sepultura, né?
Obviamente, temos músicas ali que poderiam fazer um set até acústico, mas não é o caso. A gente está apresentando uma turnê de despedida e esse show faz parte dessa turnê. Então, assim, vamos misturar algumas músicas, mas dentro do nosso repertório e daquilo que estamos fazendo nessa turnê.
O Sepultura tocará no mesmo dia que nomes como Justin Timberlake, Tool e Bring Me The Horizon. O que acha desse lineup e da mistura de estilos dentro do festival?
Cara, eu vi o Justin Timberlake no Rock in Rio uma vez. É um fenômeno, né? Um artista espetacular, mano. O show vale muito a pena. O Tool também é uma banda espetacular, que a gente gosta muito, que é muito pesada, que a galera do heavy metal curte bastante.
Saindo um pouco do festival, 41 anos depois, o Sepultura está se despedindo dos palcos, sendo que vocês são uns dos grandes responsáveis por levar o metal brasileiro para o mundo. Qual legado você acha que a banda deixa para as novas gerações de músicos?
Acho que é o legado de acreditar naquilo que você faz, que é possível. Tudo é possível no momento em que você foca e se prepara para aquilo que ama fazer. Independente da profissão, né?
Dentro da nossa arte, da música, é o nosso estilo. Sempre sofremos críticas como: “Ninguém entende o que vocês estão falando”, “Isso é gritaria”, “Isso aí é só barulho”, não sei o quê. Beleza! Sempre acreditamos no que fizemos. Sempre lutamos pela nossa liberdade artística, porque toda hora aparece alguém para falar: “Vocês têm que ser mais assim”, “Vocês têm que fazer mais assado”, “Tem que tocar na rádio”, “Tem que fazer isso”, “Tem que fazer aquilo”.
É um eterno “tem que fazer”, um eterno balde de palpites. Porque, na hora de fazer música, todo mundo quer fazer música, né? É igual na internet. Surgiu Covid, todo mundo virou especialista em Covid.
Estamos muito acostumados com isso e sempre lutamos pela nossa liberdade e pelo nosso foco. Sempre ensaiamos muito, sempre trabalhamos e nos preparamos. Eu estudo música até hoje, estudo violão, estou sempre antenado no que está acontecendo no mundo da música. Você nunca para.
Veja a motivação de artistas como Paul McCartney, Rolling Stones, que estão no palco fazendo um puta som com 80 e poucos anos nas costas, curtindo, fazendo um som de qualidade. Rock and roll é um estilo jovem, e estamos vendo isso pela primeira vez, né? Isso motiva muito um músico a seguir a carreira para sempre, independente do estilo.
Apesar do Sepultura estar parando com as suas atividades, a música não para. Acho que é justamente por isso que ainda nos sentimos jovens e motivados para começar alguma coisa praticamente do zero. Obviamente, temos nossa experiência, nossos contatos e tudo mais, mas é algo que só vamos saber no futuro. Pelo menos eu não estou muito preocupado com isso ainda. Há várias possibilidades e não temos que definir nada agora.
Quero realmente curtir o momento. Mas acho que esse corte na nossa carreira será muito positivo para todo mundo, para realmente termos desafios novos e, quem sabe, voltar no futuro ou não.
Então vocês estão deixando uma porta aberta para um futuro retorno?
Sempre! Eu não posso fechar essa porta. Quem que fecha essa porta? Eu posso definir hoje: “Nunca mais vou tocar com o Derrick Green“. Mas amanhã posso pensar diferente.
Não existe uma porta fechada, a não ser que todo mundo esteja morto, aí sim. Mas, enfim, as portas estão abertas para tudo que é possível. Acho que será muito saudável para todo mundo dar esse respiro.
Desde que entrei nessa banda, em 1987, nunca parei. Mesmo quando estávamos em pandemia, sem vocalista, sem empresário, sempre estávamos trabalhando para montar um futuro. Procurando pessoas novas, encontrando peças novas, enfrentando o desafio de fazer mais um disco, achando empresário. Sempre trabalhando, né?
Acho que será algo saudável dar um tempo, respirar um pouco e ver as coisas um pouco de fora, como o astronauta vê o planeta Terra: de um outro ponto de vista.
Depois do último show, o que vem a seguir para você e os outros membros da banda? Já existem projetos individuais em mente?
Tem várias coisas… e nada [risos].
Você pode deixar um recado para os leitores do Tracklist?
Queria agradecer o espaço para o Sepultura. E agradecer, só agradecer, a todos que apoiaram e apoiam o Sepultura até hoje.
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