O rapper deu início à nova turnê no Espaço Unimed, com participações de Edi Rock, Rashid, Projota, Jotapê e Prettos

Faziam dois anos desde o último show de Emicida em sua terra natal, São Paulo. O meio-tempo foi de reclusão, pesquisa e trabalho após viver uma das fases mais bem-sucedidas de sua carreira com “AmarElo” (2019), disco que furou bolhas, expandiu gêneros musicais e até mesmo atravessou oceanos em turnê.
De lá pra cá, no entanto, sua vida pessoal foi conturbada entre a crise familiar e o luto. O rapper se viu em um conflito judicial com o irmão, Evandro Fióti, que levou ao fim da parceria entre ambos na gravadora Laboratório Fantasma. Também veio uma notícia trágica: sua mãe, Dona Jacira, faleceu aos 60 anos, e a causa de morte não foi divulgada. Em um de seus momentos mais vulneráveis, a dor se tornou confissão em forma de rimas.
No seu novo disco, “Emicida Racional VL 2: Mesmas Cores & Mesmos Valores” (2025), Emicida faz da nostalgia o palco para despejar suas emoções. O trabalho é uma homenagem ao último álbum lançado pelo Racionais MC’s, “Cores & Valores” (2014), e reimagina as composições e histórias do maior grupo do rap nacional dentro do seu universo pessoal. É um projeto profundamente intimista, que aborda temas como o luto, a memória e o hip-hop, e convida o público a refletir e se voltar para si.
Era difícil imaginar como traduzir canções tão introspectivas para um espaço grandioso como os shows, mas Emicida decidiu transformá-las em uma experiência imersiva. Com a “Emicida Racional MCMV Tour”, o cantor fez seu retorno aos palcos na noite de quinta-feira (30) no Espaço Unimed, na capital paulista, com uma performance potente em emoção, energia e simbolismo.

Mais do que apresentar seu repertório para os fãs, porém, o artista organizou um espetáculo musical e visual que percorre toda a sua trajetória sem economizar em estrutura e entrega. Cada canção ecoa como um desabafo entre o público, que também descarrega os próprios sentimentos nos versos.
A apresentação é dividida em cinco atos e percorre toda a trajetória do rapper. Entre as seções, trechos da peça teatral “Tá Pra Vencer” são exibidos para o público, em relatos que desabafam sobre a urgência da população preta de vencer na vida. Emicida também abre o show com um depoimento: o cantor surge sobre o palco ao som de “Essa É Pra Você Primo”, música de sua primeira mixtape dedicada ao amigo DJ Primo, que faleceu em 2008.
O tom político também é parte essencial da mensagem durante o show. Em “Ismália”, música que alegoriza o racismo estrutural do Brasil, Emicida dedica uma parte da performance para discursar sobre o mito da paz, enquanto o telão exibia uma mensagem contundente sobre o governo estadunidense e a guerra com o Irã: “Dedicado às 168 meninas assassinadas em uma escola do Irã pelos amigos de Epstein”.
A apresentação é pensada como um mergulho a fundo do universo pessoal de Emicida, para dentro de seu lar e nas ruas. A banda dá potência às rimas, que, afiadas como sempre, descrevem as suas vivências ao longo das fases de sua vida. A escolha de batidas é igualmente certeira: na mesa de som, DJ Nyack, produtor e amigo de longa data do cantor, mescla samples de diferentes estilos e épocas para conduzir as suas faixas, e em meio a refrões de Sandra de Sá e Tim Maia, são os clássicos dos Racionais MC’s que protagonizam alguns dos momentos marcantes do show.

Além de recitar alguns dos grandes sucessos do grupo, como “Capítulo 4, Versículo 3” e “Jesus Chorou”, Emicida também apresenta as próprias músicas sobre as produções de KL Jay. “Papel, Caneta e Coração”, um dos primeiros hits de sua carreira, ganha uma versão especial sobre as batidas de “Vida Loka, Pt. I”, traçando o paralelo entre ambos os mundos. As referências também são parte da homenagem que o artista faz ao grupo em seu último disco, e que se estendem para o palco de diferentes formas — até mesmo na presença de um dos próprios Racionais.
No segundo ato, Emicida convida Rashid e Projota ao palco para apresentarem “A Mema Praça”, releitura de uma das canções do grupo, “A Praça”, que narra a confusão que marcou o show do Racionais na Virada Cultural paulistana de 2007 e levou a prefeitura a proibir apresentações do rap no centro de São Paulo por anos. Ao fim da performance, Edi Rock sobe ao palco para fazer a ponte entre as duas gerações, em um encontro entre mestre e aprendizes.
O trio permanece sobre o palco para reeditar a sua parceria histórica como Os Três Temores, desta vez para apresentarem um de seus sucessos, “Nova Ordem”. A noite também contou com outros convidados de honra: os Prettos, dupla de samba responsável por uma das rodas mais populares do país, acompanhou o cantor na melodia de “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)” e “Us Memo Preto Zica”.

Mais cedo, Jotapê, uma das principais revelações do rap nacional, também foi convidado pelo cantor para uma performance de “Leandro Roque”, faixa autoral que leva o nome de batismo de Emicida. O rapper creditou o lançamento de seu último disco à obra do jovem MC, que homenageou sua principal influência em forma de música: em uma noite de encontros entre ídolos e fãs, Emicida reverencia os Racionais, e Jotapê reverencia a Leandro, que se emocionou sobre o palco.
A noite, como um todo, foi bastante comovente. Foram várias as vezes que o artista chorou em frente aos fãs, principalmente nas dedicatórias à Dona Jacira. Durante a performance de “Mãe”, canção escrita para a própria mãe, Emicida mal conseguiu cantar todos os versos: com a ajuda do público que o acompanhava, o cantor protagonizou um dos momentos mais tocantes da carreira ao se voltar para a mãe com uma expressão do idioma quéchua: “tupananchiskama” (“até que a vida volte a nos reencontrar novamente”, conforme a tradução exibida nos telões).
A impressão é que a nova turnê marca um ponto decisivo na trajetória de Emicida, mas também de Leandro. Poucas vezes, o rap brasileiro testemunhou um show tão grandioso em todos os sentidos: um espetáculo carregado de talento, de estrutura e, principalmente, de tamanho coração. O rapper lavou a própria alma em lágrimas e rimas ao longo de três horas de apresentação, e os fãs o acolheram em uma celebração à sua jornada. Depois de anos afastado dos palcos, Emicida ainda é o topo do hip-hop nacional.
SETLIST:
1. “Essa É Pra Você Primo”
2. “Sonho Meu” (cover do Xis)
3. “Ismália”
4. “Mesmas Cores & Mesmos Valores”
5. “Hoje Cedo”
6. “Olhos Coloridos” (cover de Sandra de Sá)
7. “Capítulo 4, Versículo 3” (cover de Racionais MC’s)
8. “Boa Esperança”
9. “AmarElo”
10. “Finado Neguim Memo?”
11. “Eminência Parda”
12. “A Chapa É Quente”
13. “A Mema Praça” (com Rashid e Projota)
14. “A Praça” (do Racionais MC’s) [com Edi Rock, Rashid e Projota]
15. “Nova Ordem” (com Rashid e Projota)
16. “Pantera Negra”
17. “Papel, Caneta e Coração”
18. “Leandro Roque” (com Jotapê)
19. “Santo Amaro da Purificação”
20. “É Tudo Pra Ontem”
21. “Principia”
22. “Paisagem”
23. “A Paz” (cover de Gilberto Gil)
24. “São Pixinguinha”
25. “Motriz” (cover de Caetano Veloso)
26. “Mãe”
27. “Ooorra…”
28. “Quanto Vale O Show Memo?”
29. “Jesus Chorou” (cover de Racionais MC’s)
30. “A Moral Provisória” (cover do Parteum)
31. “Ela Partiu” (cover de Tim Maia)
32. “Homem Na Estrada” (cover de Racionais MC’s)
33. “Levanta e Anda”
34. “A Ordem Natural das Coisas”
35. “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)” (com Prettos)
36. “Us Memo Preto Zica” (com Prettos)






