Crítica: “Toy Story 5” traz sua discussão mais atual ao colocar a infância frente a frente com as telas

A animação da Pixar mistura humor, emoção e uma reflexão surpreendentemente real sobre o espaço da imaginação em uma geração cada vez mais conectada

Foto: Divulgação / © 2026 Disney/Pixar

Por Victor Gabriel – Depois da despedida emocionante de Woody (Tom Hanks) em “Toy Story 4”, o filme “Toy Story 5” chega com uma missão delicada: continuar uma história que parecia ter encontrado um encerramento perfeito. A surpresa é que o novo longa-metragem encontra seu caminho justamente ao mudar o foco, colocando Jessie (Joan Cusack) no centro da narrativa e permitindo que ela assuma de vez a liderança dos brinquedos de Bonnie (Scarlett Spears).

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Atenção: o texto pode conter spoilers.

O que acontece quando a imaginação perde espaço?

Agora responsável por cuidar dos brinquedos de Bonnie, Jessie mantém a liderança estabelecida por Woody no fim do quarto filme. Mas, se antes os vilões pareciam quase invisíveis aos olhos humanos, aqui a tecnologia se torna uma ameaça muito mais concreta – capaz de disputar não apenas a atenção das crianças, mas também a forma como elas constroem memórias, vínculos e imaginação.

Isso fica ainda mais evidente em uma das cenas mais reais que a franquia já trabalhou: quando Jessie observa, do alto, várias crianças ao redor em suas casas, todas vidradas em telas. A imagem é simples, mas muito forte: os brinquedos já não disputam atenção apenas entre si, mas com um mundo inteiro preso às telas.

Bonnie, por sua vez, ainda preserva parte dessa essência infantil. Ela continua sendo uma criança capaz de enxergar valor nos brinquedos e nas brincadeiras, mas também começa a sentir o peso de uma geração cada vez mais presa aos celulares e mais distante das relações presenciais. É daí que nasce boa parte da trama: da tentativa de Jessie de recuperar em Bonnie esse olhar inocente, imaginativo e afetivo sobre a infância.

Lilypad e a infância em risco

Grande parte desse conflito passa por Lilypad (Greta Lee), personagem que representa essa nova relação entre crianças e tecnologia. Ela surge quase como uma vilã ao tentar prender Bonnie nesse ambiente digital, oferecendo distração, controle e uma falsa sensação de companhia. Sua presença torna o conflito mais atual, porque não se trata apenas de um brinquedo sendo substituído por outro, mas de uma infância atravessada por telas.

O mais interessante é que Lilypad não funciona apenas como uma antagonista simples. Seu arco de redenção é um dos pontos mais interessantes do filme, justamente porque ela entende que não pode controlar laços. Ao perceber que brincar, conviver e imaginar são partes fundamentais da construção das crianças, a personagem deixa de ser apenas uma ameaça e passa a fazer parte de uma reflexão maior sobre o que significa crescer em um mundo tão conectado.

Nesse sentido, “Toy Story 5” brinca com uma questão muito atual: a tentativa de reacender a infância em crianças que amadurecem cedo demais diante das telas. O filme não trata a tecnologia como algo puramente maligno, mas mostra que ela se torna perigosa quando substitui experiências, amizades e descobertas que precisam acontecer fora do ambiente digital.

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Foto: Divulgação / © 2026 Disney/Pixar

O filme mais engraçado da franquia

Mesmo trabalhando temas bastante atuais, “Toy Story 5” talvez seja o filme mais engraçado e divertido da franquia. O humor é certeiro e arranca risadas constantes durante a sessão, principalmente porque o roteiro sabe brincar com o desgaste, a idade e as inseguranças dos próprios brinquedos sem perder a leveza.

Woody, por exemplo, vira alvo de algumas das melhores piadas do filme. A animação se diverte com a idade avançada do cowboy – como quando a tinta desgastada começa a revelar uma espécie de “careca” em sua cabeça. É um tipo de humor visual simples, mas muito eficiente, que combina bem com a leveza da história.

Esse equilíbrio entre piada e emoção é um dos grandes acertos da produção. Mesmo quando a trama fala sobre solidão, tecnologia e medo de ser esquecido, a história nunca perde a capacidade de divertir. Pelo contrário: é justamente essa leveza que torna os momentos emotivos ainda mais naturais.

Buzz e Jessie fecham um ciclo

O laço entre Buzz Lightyear (Tim Allen) e Jessie também é muito bem trabalhado. A relação entre os dois, construída aos poucos ao longo da franquia, finalmente ganha um fechamento mais claro e carinhoso neste filme. Existe uma maturidade divertida na forma como o roteiro trata o casal, sem exagerar no romantismo, mas reconhecendo a importância dessa conexão para os personagens.

Um dos momentos mais marcantes acontece quando Buzz finalmente cria coragem para pedir a mão da vaqueira. A cena funciona tanto pelo humor quanto pela emoção, fechando um ciclo importante para os dois e entregando ao público um momento que parece simples, mas carrega anos de construção afetiva.

A ferida de Jessie ganha outro significado

Entre as cenas mais bonitas do filme, está o retorno de Jessie à casa de Emily. O momento revisita uma das feridas mais marcantes da personagem, apresentada em “Toy Story 2”, mas agora oferece uma resposta mais acolhedora. Jessie descobre que nunca foi simplesmente abandonada ou esquecida por sua antiga dona, que encontrou uma forma de homenagear a boneca e guardar aquela memória com carinho.

É uma cena delicada e muito emocionante, porque não apaga a dor do passado, mas dá a ela outro significado. Para uma personagem que sempre carregou o medo de ser deixada para trás, esse reencontro funciona como uma espécie de cura.

Uma história sobre continuar imaginando

No fim, “Toy Story 5” entende que a infância mudou, mas não trata isso apenas com nostalgia. O filme olha para um presente em que as telas ocupam cada vez mais espaço e transforma essa realidade em uma reflexão sobre memória, afeto e a necessidade de continuar imaginando. Visualmente, também é um dos capítulos mais bonitos da franquia, com uma animação impressionante que reforça a vida e a personalidade desses personagens em cada cena.

O encerramento ganha ainda mais força com “I Knew It, I Knew You”, canção original de Taylor Swift inspirada em Jessie. A letra conversa diretamente com a trajetória da vaqueira, uma personagem marcada pelo medo de ser esquecida, mas que encontra conforto ao perceber que os laços construídos ao longo da vida não desaparecem com o tempo. A música ajuda a traduzir o sentimento que acompanha todo o filme: crescer muda as pessoas, mas não apaga aquilo que elas significaram umas para as outras.


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