O Emmy exalta “Hacks”, “The Pitt”, tem surpresas, mas mantém a tradição com muitos esnobados e injustiçados; leia a análise

O Emmy é cheio de velhos conhecidos e nomes da moda. Alguns seriados tornam-se queridinhos, outros ficam na sombra, mas a verdade é que a maior premiação da televisão norte-americana costuma viver de produções que se tornam dinastias vencedoras. Certos títulos permanecem no topo até o fim, existem obras que são aos poucos sendo deixadas de lado e ainda há o caso daquelas que nunca sequer chegam a poder ganhar uma estatueta dourada. O Emmy 2026 mostrou que os ventos mudaram e fez uma lista que exalta as séries que conseguiram se manter em alto nível, esnoba aquelas que caíram de rendimento, apresenta novas postulantes ao estrelato e descarta algumas merecedoras de reconhecimento.
As queridinhas deste ano estão em lugares muito distintos. “The Pitt”, série de drama mais indicada da edição, com 25 nomeações, vive o auge após uma segunda temporada muito aclamada e de qualidade similar, se não melhor, que a primeira. “Hacks”, a líder das categorias de comédia com 24 nomeações, despede-se do público após garantir boas risadas com a quinta temporada. Ambas ajudaram a HBO a mais uma vez estar no topo da lista como a emissora ou plataforma mais indicada com 122 nomeações.
O frenético drama médico que tem um episódio para cada hora de plantão, “The Pitt”, chama atenção por ter 13 nomes distintos disputando em cinco das seis categorias de atuação. Brittany Allen,Tal Anderson e Tina Ivlev concorrem a Melhor Atriz Convidada em Drama; Jeff Kober e Ernest Harden Jr. disputam Melhor ator convidado em drama; Taylor Dearden, Fiona Dourif, Katherine LaNasa e Spideh Moafi entraram na lista de Melhor Atriz Coadjuvante em Drama; Patrick Ball, Shawn Hatosy e Gerran Howell estão na corrida por Melhor Ator Coadjuvante em Drama; e Noah Wyle é favorito, mais uma vez, para vencer Melhor Ator de Drama. Wyle ainda concorre como diretor pelo episódio “12:00pm” e como produtor do seriado, totalizando mais três indicações para a conta do amado intérprete do Dr. Robbie.
A cômica história de uma comediante de stand up tentando voltar ao topo, “Hacks”, também está cheio de nomes entre as categorias de atuação com oito indicações. Porém, o que mais chama atenção é a constância da série. Já vencedor de 12 Emmys, o seriado foi indicado a Melhor série de comédia em todas as temporadas. Jean Smart, que vive a protagonista Deborah Vance, pode chegar a cinco vitórias na categoria Melhor atriz de Comédia em cinco indicações. Enquanto Hannah Einbinder, que vive coadjuvante Ava, tenta a segunda vitória seguida após ser indicada todos os anos.
No entanto, os destaques dessa lista, para além das maiores indicadas, estão entre as novidades, as despedidas, os esnobados e os injustiçados.
A Apple TV é referência no quesito originalidade atualmente. A plataforma foi responsável pelo lançamento dos dois títulos estreantes de maior destaque deste ano: “Pluribus” em drama e “O Segredo de Widow’s Bay” em comédia. “Pluribus” é uma ficção científica em que o mundo se torna uma consciência coletiva alienígena e apenas algumas pessoas conseguem manter a individualidade. “O Segredo de Widow’s Bay” acompanha o prefeito de uma pequena ilha que tem que lidar com eventos estranhos e amaldiçoados na tentativa de aumentar o turismo local. Somadas as duas, chegaram a 30 indicações, 13 para “Pluribus” e 17 para “O Segredo de Widow’s Bay”.
Vale chamar atenção também para “Margô Está em Apuros”, outra estreante do streaming da maçã, que após boa temporada conseguiu concrrera seis Emmys e colocou as indicadas ao Oscar Elle Fanning e Michelle Pfeiffer na briga. Nick Offerman, destaque absoluto da série no papel de Jinx, concorre duas vezes na lista de 2026. O ator também foi reconhecido em outro papel coadjuvante na minissérie “Como um relâmpago”. “Margô está em apuros” acompanha a personagem-título que após ter um filho não planejado cria um alter ego alienígena no Onlyfans para pagar as contas.
“Hacks” não é a única série que dá adeus ao público. “The Bear”, série que concorre em comédia, apesar de ser um drama, também chegou à quinta e última temporada em 2026 e concorre a Melhor série de comédia e Melhor atriz de comédia, com Ayo Edebiri. A produção que acompanha toda a tensão e ansiedade que é estar na cozinha de um restaurante encerra a trajetória com uma temporada de impacto. O seriado é um dos mais vitoriosos dos últimos anos, mas perdeu força com a Academia de Televisão, não conseguindo se tornar a dinastia que todos esperavam que seria na premiação.
Mais uma que deu adeus foi a controversa “Euphoria”. A produção teve uma terceira temporada bastante polêmica e foi cancelada. Entretanto, Zendaya entregou uma grande atuação, como de costume, e carregou a série. Por isso, recebeu uma indicação merecida. Quem também apareceu na lista foi Colman Domingo, que concorre a Melhor ator convidado em drama pelo papel de Ali. O ator ainda teve o nome lembrado mais uma segunda vez na lista com indicação a Melhor ator coadjuvante em comédia pelo trabalho em “As Quatro Estações do Ano”.
Para falar de esnobados, é preciso falar de despedidas. Duas das séries mais marcantes dos últimos anos deram adeus entre 2025 e 2026 e tiveram de se contentar apenas com categorias técnicas nesta edição do Emmy. “Stranger Things” e “The Boys” acabaram e foram esquecidas das categorias mais importantes da premiação. Ambas tiveram os finais criticados e, num ano difícil como este, não há tolerância para quedas de qualidade.
Outro que se despediu foi Jeremy Allen White. O protagonista de “The Bear” deixou de ser indicado pela primeira vez ao Emmy desde que estreou na série e dá um adeus melancólico ao personagem Carmy, ponto crucial de virada na própria carreira.
É possível separar três tipos de injustiçados. Os primeiros são os seriados que apareceram na categoria de Melhor Série de Drama, mas não tiveram outros profissionais lembrados. Este é o caso do excelente derivado de “Game of Thrones”, “O Cavaleiro dos Sete Reinos”, que não teve as atuações de Peter Claffey e Dexter Sol Ansell ou ao menos um roteiro ou direção de episódios nomeados na lista. Ou de “Seus Amigos e Vizinhos”, que não teve Jon Hamm reconhecido pelo grande protagonista que vive.
O segundo caso é de produções que foram lembradas em algumas categorias, mas não passaram no corte final para Melhor Série. Este é o caso do drama policial Task, que concorre a Melhor ator de drama com Mark Ruffalo, Melhor Roteiro e Melhor Direção de episódio; “Rooster”, que apesar de grande temporada, só foi lembrado na lista de comédia pelo bom trabalho de Steve Carell como personagem título; a “A Cadeira” que só está presente nas categorias de Melhor Direção e Roteiro em episódios de comédia; e “Pela Metade”, que viu apenas o criador Richard Gadd ser indicado a Melhor ator coadjuvante em minissérie.
O terceiro tipo são as séries absolutamente esquecidas de qualquer categoria. A comédia escrachada sobre os problemas jovens adultos “I Love LA” foi uma delas. Outro título que ficou de fora foi a comédia dramática “Hal & Harper”, que acompanha o envelhecimento e o trauma de dois irmãos. Mesmo que não fosse para as categorias da noite, valia a lembrança pelas boas atuações em ambas as produções.
Contudo, nem tudo foi injustiça no Emmy. Títulos como “Abbott Elementary”, “Treta”, “DTF St. Louis”, “Falando a Real”, “Slow Horses”, “A Diplomata”, “Paradise”, “All Her Fault” e “A Idade Dourada” foram lembrados em mais de uma categoria e mereceram as indicações que tiveram. Com destaque para Sarah Snook, favorita para Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie por “All Her Fault”; Harrison Ford, que tente o primeiro grande prêmio de destaque por “Falando a Real” na categoria de Melhor Ator Coadjuvante em Comédia; e Jason Bateman, que concorre a quatro Emmys na mesma noite por papéis e funções distintas entre as minisséries “DTF St. Louis” e “Black Rabbit”.






