O disco, comentado há quase dez anos como o último de sua carreira, fica abaixo das expectativas e dos padrões que o rapper criou para si

Fazem oito anos desde que J. Cole mencionou “The Fall-Off” pela primeira vez. Antes de existir em conceito, versos ou em forma, o rapper já idealizava a sua despedida da música em um tom grandioso, quase utópico, enquanto ainda escalava importantes degraus em sua carreira. Outros projetos vieram a frente e ajudaram a solidificar seu nome entre os maiores letristas da geração, com grandes sucessos e composições marcantes nos últimos anos.
Mais recentemente, porém, o rapper viu sua persona imbatível no hip-hop ruir aos poucos. No ano passado, Cole se viu no meio de um fogo cruzado entre Kendrick Lamar e Drake, em uma briga que marcou 2025 — mas não para ele. O modo com o qual escolheu se retirar do embate, após lançar uma diss contra o californiano, fazer um pedido público de desculpas e apagá-la logo depois, afetou a percepção que uma boa parte dos fãs tinham sobre o artista.
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Nada que aconteceu deveria apagar o brilho de uma discografia que fala por si só. Seu talento em contar histórias foi capaz de ultrapassar barreiras comerciais e levar seu nome a grandes públicos, desafiando-os a decifrar sua trajetória conturbada junto a ele. Por isso, “The Fall-Off”, o aguardado “último capítulo” de uma vida de rimas e histórias, é uma aposta final para o legado de Cole para os anos pela frente
Nesta sexta-feira (6), finalmente tivemos fim à essa espera. Cole não deixa de entregar o que prometeu: um trabalho profundamente pessoal, com algumas das mais afiadas e transparentes composições de sua carreira sobre sua trajetória e seu legado. No entanto, o disco perdura por 1 hora e 40 minutos com altos e baixos demais para um projeto com tamanha mística em torno de si, que refletem o melhor e o pior de Jermaine.
A experiência se divide em dois discos. O primeiro conta a história de um artista voltando à sua terra natal, na Carolina do Norte, aos 29 anos, depois de ter alcançado sucesso em sua carreira e ter se mudado para Nova Iorque. Já a segunda metade acompanha J. Cole fazendo o mesmo trajeto nos dias de hoje, aos 39, “mais velho e um pouco mais perto da paz”, em suas palavras, e também como um homem casado e pai de dois filhos.
As músicas de cada uma das duas partes acompanham esse espírito. O “disco 29” começa com canções mais efusivas que firmam o pé de Cole no acelerador desde o início; em “Two Six”, o rapper volta para a casa em estilo, com batidas enérgicas e rimas rápidas que homenageiam suas raízes. Em seguida, em “Safety”, Jermaine mostra seu melhor como narrador: aqui, o artista ouve seus amigos o atualizarem sobre o que mudou em sua terra natal desde que partiu.
São muitas as narrativas que o rapper conta em “The Fall-Off” como retratos de suas origens, lembrando-se a si mesmo de onde veio. No “disco 39”, por exemplo, Cole retoma o assunto em uma perspectiva diferente em “The Villest”, faixa na qual o rapper versa sobre as motivações de seu eu mais jovem ao refletir sobre a vida que leva hoje. Enquanto rima, ninguém mais, ninguém menos que Erykah Badu empresta sua voz para o refrão.
Em “The Fall-Off”, aliás, J. Cole quebra a tradição de produzir álbuns totalmente solo e traz algumas colaborações para somarem ao som. Os convidados, porém, são seletos: além da cantora, nomes como Burna Boy, Morray, PJ e Petey Pablo também compõem os créditos da obra. Em “Bunce Road Blues”, Future e Tems unem forças em uma das melhores faixas do álbum e com batidas assinadas por The Alchemist, um dos nomes mais renomados do rap atual.
No entanto, a produção não se mantém em tão alto nível ao longo do disco. A maior parte das faixas soa repetitiva e não cativa os ouvidos em tão poucos momentos de êxtase. Há algum destaque aqui e ali: a segunda metade de “Who TF Iz U” é um deles, pegando o ouvinte de surpresa em uma explosão sonora, assim como em “The Fall-Off Is Inevitable”. Porém, as canções poderiam ser mais diversas e oferecer um senso de novidade maior aos fãs.
Não somente esse, mas “The Fall-Off” herda a maioria dos demais problemas de um álbum duplo. O principal deles é o seu tamanho extenso, que torna a audição tediosa em muitos momentos. Ainda que as composições sejam carregadas de significados e decifrá-las seja um exercício à parte que Cole proporciona ao seu público, o cantor não entrega exatamente nada que não tenhamos ouvido antes (e melhor) em seus trabalhos anteriores. Na verdade, o disco como um todo parece carecer de uma direção, o que prolonga ainda mais cada um de seus 100 minutos.
Talvez o ponto alto da obra seja quando Cole fala abertamente sobre sua relação com o hip-hop, já na segunda metade. Em “I Love Her Again”, por exemplo, o cantor se declara ao rap personificado em uma mulher, dizendo que “acha que está se apaixonando por ela de novo”. Já em “What If” o rapper rima das perspectivas de Biggie e 2Pac, retratando o embate que ambos tiveram nos anos 90 e criando, nas entrelinhas, um paralelo aos capítulos recentes de sua própria carreira.
O futuro de J. Cole, apesar das simbologias que envolvem o álbum, permanece um segredo. Mas caso de fato estejamos diante do capítulo final de sua carreira, podemos dizer que o fim é muito menos interessante que a jornada. “The Fall-Off”, como um todo, é uma despedida humilde de um dos rappers mais importantes do cenário, mas que leva bem pouco do talento que o impulsionou ao topo.
Nota: 6,5 / 10






