Entrevista: Vitor Kley comenta novo álbum, clipe e mais

Vitor Kley voltou a brilhar com força total. Mas, desta vez, o astro que o...

Foto: Divulgação/Crédito: Rodolfo Magalhães

Vitor Kley voltou a brilhar com força total. Mas, desta vez, o astro que o guia não é mais só “O Sol” — e sim uma constelação de sentimentos, reflexões e aprendizados que dão nome ao seu novo álbum: “As Pequenas Grandes Coisas“. Com 11 faixas autorais, o projeto lançado no último dia 25 de abril revela uma versão ainda mais madura e profunda do cantor, que mergulha de cabeça em sonoridades diversas e temas existenciais, sem perder o frescor que o consagrou.

O artista conversou com o Tracklist poucos dias antes da estreia do projeto nas plataformas. De espírito leve e cheio de empolgação, ele revelou bastidores do processo criativo do disco, contou como foi preparar o primeiro show da turnê — um evento gratuito, que rolou no último sábado (26), de frente pro mar, em Icaraí, em Niterói — e adiantou que um clipe inédito está a caminho, prometendo dar o que falar. A faixa escolhida ainda é mantida em segredo, mas, segundo ele, trata-se de um dos momentos mais especiais do novo trabalho.

Na conversa, Vitor também falou sobre a ansiedade de cantar as novas músicas ao vivo, explicou o conceito visual da nova fase e revelou que as “Pequenas Grandes Coisas Tour” já tem datas marcadas no Brasil e na Europa. Para ele, esse novo álbum não é sobre romper com o passado, mas sim sobre dar novos destinos à sua música — sempre ancorado pelas pequenas e grandes experiências da vida.

Vitor Kley fala sobre “As Pequenas Grandes Coisas”, projetos futuros e mais

Ao longo dos últimos dois anos, o que te fez respirar e desacelerar? Teve algum momento específico em que você percebeu que precisava se afastar da “bolha”?

Putz, eu acho que a pausa era muito interessante para as pequenas e grandes coisas, porque a gente vinha de um trabalho que foi muito bem-sucedido, conceitualmente falando e dentro da nossa bolha de pessoas que gostam da gente. Isso foi muito legal no último trabalho de estúdio, e eu senti que precisava dessa pausa. Eu vejo que, para amarrar tudo que foi amarrado — que está sendo amarrado — nas “Pequenas Grandes Coisas”, eu precisava desse tempo para respirar. Até por uma questão mercadológica, sabe? Muda tanto… Faz cinco anos do nosso último álbum de estúdio, né? Durante esse processo, como tu bem falou, desses dois anos de pausa, a gente até lançou alguns feats e tudo mais, mas, nossa, o mercado da música muda muito rápido. Com o avanço das redes sociais, da tecnologia, a velocidade da informação… E eu realmente, por um tempo, falei: “cara, o que tá acontecendo, velho?”. Tipo assim, vi colegas com músicas que estouravam de forma muito rápida — era um trecho muito curto, tudo tão depressa, eu diria. E aí eu fiquei pensando: “meu Deus, tudo que eu tenho aqui é tão profundo… tô pensando em coisas musicais, em começos, meios e fins e tal”. Eu precisei dessa pausa para entender realmente se esse era o caminho que eu queria seguir. E, no fim das contas, falei: “é isso, cara”. Sabe? Não importa se tá tudo depressa, se é de um jeito ou de outro. É o que eu sei fazer, é o que eu amo fazer. E vai ser assim.

Agora você volta com “As Pequenas Grandes Coisas”, disco que você considera sua obra mais rica. Em que aspectos exatamente você sente essa riqueza — é na letra, no som, nas escolhas que precisou fazer como produtor?

Eu considero justamente por todas essas coisas. Acho que o álbum dá o primeiro sinal quando eu saio da gravadora e me torno um artista independente. Aquele tempo de pausa que a gente comentou anteriormente serviu também para ajeitar todas as questões e encerrar os ciclos da maneira certa — e isso leva um tempo, né? Considero “As Pequenas Grandes Coisas” um dos álbuns mais ricos porque é o que mais pessoas botaram a mão. Tem cinco produtores: eu, Paul Ralphes, Marcelo Camelo, Felipe Vassão e Giba Moojen. É muito bonito perceber que cada pessoa tem um arranjo na cabeça, enxerga nossa arte de uma forma diferente, e acho que isso traz riqueza ao álbum.

Além disso, é um álbum gravado em vários estúdios, cidades, países: Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa, em Portugal. Como isso não vai trazer riqueza? É como a vida: quando tu viaja, tu adquire conhecimento. Eu sinto que esse álbum adquiriu um conhecimento que os outros não tinham. Por escolha mesmo. Sempre tive essa vontade de gravar em vários lugares, com pessoas diferentes. Consequentemente, os arranjos ganham outra proporção: cordas, metais, inúmeros músicos. O baterista de uma faixa não é o mesmo da outra. Os estilos são diferentes — se tu pega “Que Seja de Alegria“, que é a faixa 1, e a faixa 11, “Arco-Íris“, são dois universos distintos. Obviamente, com minha unidade de voz e violão, mas são extremamente diferentes.

Falando da parte de composição, acredito que também foi um ponto muito legal. O amor é interpretado de várias formas nesse álbum. Tem o amor, o desamor, e também questões mais filosóficas, reflexivas, existenciais — como em “Vai Ficar Bem” ou a própria “Arco-Íris”, que é uma ironia à vida: tipo, “cara, eu sou assim, me deixa aqui, tá tudo certo nesse meu universo colorido”. E tem também a faixa que fala diretamente sobre a doença, a depressão — “Vai Por Mim“. Isso traz diversidade e profundidade à composição.

Mesmo com tantas experimentações, sua identidade continua muito presente no álbum. Como você garante que sua essência permaneça quando o som se transforma tanto?

Acho que essa foi uma grande sacada, e tenho que evidenciar o Paul Ralphes, que é diretor e também um dos produtores do álbum. Quando fui conversar com ele pela primeira vez, na casa dele no Rio, ele disse algo que ficou na minha cabeça e que conseguimos executar lindamente. Ele falou: “Vitor, beleza, tu quer produzir com várias pessoas — acho demais. Mas precisamos manter uma unidade de algo que já foi consolidado na tua carreira: as canções. Tua voz e teu violão muito presentes”.

Então teve essa preocupação técnica. A gente testou quatro microfones. Lembro da primeira vez que entrei no estúdio e definimos um — acho que era um Neumann Vintage U67. E combinamos: todas as músicas seriam gravadas com ele, mesmo as feitas em Portugal com o Marcelo. Eu gravaria todos os violões, e partiríamos das prévias que fiz em casa. Isso trouxe a unidade que tu sente, que tá ali no meu DNA. Foi uma grande sacada do Paul.

Mesmo com novas sonoridades, esse é o fio condutor. O Marcelo Camelo, por exemplo, traz aqueles arranjos orquestrais lindos, a guitarra com reverb, tremolo… ele mesmo tocando bateria, com viradas muito dele. Fica nítido o que é dele — mas, ao mesmo tempo, eu tô ali presente também.

Esse encontro com o Marcelo foi valioso. A primeira coisa que ele me perguntou foi: “o que eu posso somar no teu trabalho?”. Ele disse: “pra mim, tu já é um cara consolidado. Por que me chamou?”. E aí eu expliquei: primeiro, porque sou muito fã. E porque queria esse tempero novo. E ele falou o mesmo que o Paul: “precisamos manter teu DNA, cara. Esse negócio solar, esse teu jeito… não quero mexer nisso, porque sei que é o pote de ouro. Mas em arranjo, posso somar coisas mais sofisticadas”. Acho que acertamos muito nisso.

E tu falou uma palavra muito importante: essência. Todo esse álbum é conectado por esse fio condutor. A capa mostra isso: sou eu conversando com meu mini-eu, representando a essência. E a sombra maior do que a pessoa que sou hoje. Como quem diz: nossa essência é um grande gesto. São as pequenas grandes coisas que a gente não pode deixar passar.

Antes de qualquer coisa, sentimos muito pela perda do seu pai. Lançar um álbum e se apresentar nesse momento exige uma coragem imensa. “Vai Por Mim” é uma homenagem a ele e ganha um significado ainda mais profundo agora. Como foi revisitar essa canção tão pessoal depois da despedida dele? Ela tem sido uma espécie de abraço pra você nesses dias?

Cara, são coisas assim… Eu vou ser bem sincero: descobri que tenho muita fé na vida nesse momento. E talvez, lá atrás, eu nem entendia por que tinha tanta fé — no universo, no porquê das coisas, nos mistérios. Li um livro que dizia: algumas pessoas interpretam as situações como um buraco sem fim, outras como um problema, outras como um desafio… e algumas como mistérios da vida. Tipo: “tinha que ser, e vamos seguir em frente”.

Com a partida do meu pai, vejo que muita coisa que li, que aprendi, que talvez até tenha exercitado durante anos, agora faz sentido. Era pra ser agora, durante esse processo tão especial do álbum, que vai além da música. É uma coisa da alma. Meu pai já vinha sofrendo muito, e eu tenho plena consciência de que agora ele está em paz.

Era uma música que eu queria ter homenageado ele em vida, quando estivesse bem. Mas a depressão é traiçoeira: às vezes tu leva um presente, e acontece outra coisa dentro da cabeça da pessoa. A gente optou por não mostrar — ele não estava preparado. E a vida quis que a gente mostrasse essa música no velório dele, com a partida dele. Foi nossa oportunidade.

E, mesmo naquele clima tenso, meio aéreo, parece que ouvi ele dizendo: “filho, obrigado pela homenagem. Tá demais. E isso vai ajudar muita gente”. Tenho plena consciência disso. Desde o início, “Vai Por Mim” já era poderosa, já falava da doença que ele enfrentou por mais de 30 anos. Mas agora ela ficou ainda maior. Ele se tornou uma estrela, um farol, e está nos iluminando.

Hoje encaro que ele tá mais presente comigo — agora ele é onipresente. Está sempre conversando comigo, e eu com ele. Quando canto “Vai Por Mim”, antes achava difícil. Hoje penso: canta pra ele te ouvir. Ele quer ouvir lá do alto. Essa música virou uma força ainda maior. E acredito que pode traduzir o sentimento de muitas famílias. E pode salvar muita gente também.

Ainda no final do disco, “Arco-Íris” sugere que o sentido da vida está nos mergulhos profundos. Qual foi o mergulho mais profundo que você já deu — na arte ou na vida?

Acho que… mergulhos profundos são tantos, né? Ontem mesmo pensei nisso. A vida da música é muito intensa — estamos sempre à flor da pele, tanto na tristeza quanto na alegria, na euforia. Mas acho que o mergulho mais profundo é ter a coragem de ser sincero — com as pessoas e com a minha arte.

Isso é algo muito maluco. O mundo hoje, em grande parte, fala o que quer, sem pensar que há um ser humano do outro lado, um coração, uma família, uma criação. E se jogar nesse mundo da música desde cedo, como foi no meu caso, é algo muito profundo. Hoje estou começando a ter consciência disso: essa coragem de aparecer, de falar a realidade, sem fugir das perguntas, da minha vivência, do meu entendimento.

Falando de forma mais individual, esse é o mergulho mais profundo. Às vezes acordo de manhã e penso: “vamos nessa, tô pronto”. E talvez seja isso que me trouxe até aqui. Mas, falando de algo mais pessoal, acho que o mergulho mais profundo foi mesmo conviver com essa doença que a gente citou em “Vai Por Mim”…

No dia 26 de abril, você vai tocar de frente pro mar, em Icaraí, num evento gratuito que tem tudo a ver com o seu som solar. O que você pode nos adiantar dessa apresentação?

Putz, eu tô muito feliz. Vai ser o primeiro show depois do álbum lançado. A gente fez um show em que tocamos as músicas das “Pequenas Grandes Coisas”, de surpresa. Foi em Guarapari, no dia 19.

Então, aquele foi o show 0,01 — e agora vai ser o show 0,02, né? Vai ser em Niterói, na praia de Icaraí. E eu tô muito feliz, porque, cara, eu tava louco pra tocar depois que as músicas estivessem no mundo, pras pessoas, minimamente, dentro do possível, já estarem cantando junto.

É um show que, com certeza, vai ter muito azul, vai ter muito dos nossos jeans, de retalhos… os retalhos que são peças da nossa família aqui, que estão inseridos também nas “Pequenas Grandes Coisas” do nosso figurino. E eu tô muito feliz, assim, porque não poderia ter um lugar melhor pra estartar essa turnê, sabe? Na praia… Nossa, eu vi o palco, tá lindo, grande, um palcão mesmo. E a gente trazendo as novidades do nosso show: uma introdução nova, um setlist novo, um momento no meio do show que também é novo. Eu tô aqui pensando em loucuras, tipo tocar “Arco-Íris” no meio do show, mesmo que ela ainda não esteja oficialmente no setlist. [risos].

Com o lançamento do álbum, quais são seus próximos passos?

Eu tô muito feliz em dizer que uma música muito especial desse álbum vai ter um clipe que vai dar um bafafá. E eu tenho certeza — quer dizer, se for da tua vontade — que a gente vai voltar a conversar por causa desse clipe, porque tá muito lindo. Tava vendo agora, ajustando… acho que vai ser o último ajuste, que é mínimo, só um negocinho de cor, pra ele ficar 100% pronto.

A gente não quis lançar esse clipe junto com o álbum justamente porque estamos falando de uma obra inteira, um conceito todo amarrado. Então queremos evidenciar o álbum, falar muito sobre ele, sobre essas 11 faixas — que têm até essa carga reflexiva, filosófica e tal. Queremos prestar muita atenção nisso, pra, daqui a umas duas semanas, vir com esse clipão — que já é a nossa novela, digamos assim.

Então, o foco agora é total no álbum. Foco total em passar essa mensagem, dar esse primeiro passo das “Pequenas Grandes Coisas” pro mundo. E, em breve, vem esse primeiro clipe do pós-lançamento. E obviamente tem a turnê, né? Agora a gente vai pra Niterói, depois pra Santa Catarina no início de maio. Logo depois desse show, eu já embarco pra Portugal pra fazer a divulgação do álbum por lá. Nosso primeiro show em Portugal é no dia 10 de maio. E depois tem a turnê pela Europa.

Antes disso, na verdade, a gente toca aqui em São Paulo com a Dave Matthews Band, no The Best of Blues and Rock. Putz, baita festival, vai ser no Ibirapuera. A gente também vai tocar as “Pequenas Grandes Coisas” por lá. Agora tudo é a turnê das “Pequenas Grandes Coisas”. [risos]

Depois vamos pra Europa, fazer a turnê por lá no segundo semestre. Vai ser recheado de shows — queremos passar por São Paulo, Porto Alegre, BH, Curitiba… enfim, por aí vai. E eu tô muito feliz porque esse álbum já estartou com muita coisa bonita de turnê. Eu gosto muito do ao vivo. As pessoas que me conhecem sabem o quanto eu gosto de tocar as coisas ao vivo. Então esses são os próximos passos.

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