Resenha: Harry Styles escolhe viver sem medo em “Kiss All The Time. Disco, Occasionally.”

O quarto álbum de estúdio do cantor britânico lançado nesta sexta-feira (6) é o mais ousado da carreira

Foto: Reprodução/Instagram @harrystyles

Em “Kiss All The Time. Disco, Occasionally.” estranheza definitivamente não é um acidente, mas sim uma escolha. O quarto álbum de estúdio de Harry Styles, lançado nesta sexta-feira (6) é a definição de admiração frente ao desconhecido, no seu trabalho mais experimental até aqui. 

Durante a tradicional entrevista com Zane Lowe para o Apple Music, o entrevistador inicia a conversa com o cantor britânico citando Brian Eno. “Ter bom gosto e exercer esse bom gosto é um direito humano. Se perguntar ‘do que eu gosto?’ é o primeiro passo para alcançar esse objetivo de expressão”, reflete. 

É evidente, disco após disco, que essa máxima pavimenta a essência dos trabalhos de Harry Styles. Acima de qualquer expectativa ou tendência que estão todos seguindo no mercado musical, ele se mantém fiel ao próprio gosto e busca sempre acertar a melhor forma de expressar isso ao público

Quando debutou com seu disco homônimo, ele agarrou a oportunidade de fazer música usando e abusando da plena liberdade criativa que pela primeira vez ele experimentava. O resultado foi um álbum repleto de influências de pop rock, consagrando “Sign Of The Times” como um debut single fora da curva – iniciar a carreira solo com uma balada de 5:40 de duração não é para quem quer.  

Os trabalhos seguintes proporcionaram à Harry um sucesso comercial que elevou o jogo. O disco “Fine Line” deu ao artista seu primeiro #1 na Billboard Hot 100 com “Watermelon Sugar”, enquanto “Harry’s House” foi sucesso imediato com “As it Was” e, posteriormente, um Grammy de Álbum do Ano. 

Com a carreira consolidada e conquistas que ultrapassaram as expectativas de ex-boyband, o retorno de Harry Styles habita a linha tênue entre a segurança de quem firmou o auge e a expectativa cada vez mais elevada para o que vem a seguir. 

“Kiss All The Time. Disco, Occasionally.” é ousado e vibrante

Estratégia na estranheza

É comum que exista certa resistência com o novo. A era Kissco, como foi carinhosamente apelidada pelos íntimos, foi recebida com certa resistência no lançamento de “Aperture”, que apresentou uma sonoridade contrastante com tudo que Harry já fez até aqui. Com elementos de techno e dance, a música fez o público acreditar que o álbum iria por esse caminho – mas não é bem assim. 

Apesar da crença de que esse seria um álbum voltado estritamente à eletrônica, a sonoridade é fiel ao título: disco, ocasionalmente. “American Girls” segue mais próxima do pop rock, com instrumentos orgânicos guiados pelo piano melancólico e lembrança de clássicos da banda The 1975, além de um refrão chiclete. 

Em “Ready, Steady, Go!” o vocal se funde com efeitos e sintetizadores eletrizantes no refrão, carregados por uma linha de baixo metálico. “Are You Listening Yet?” começa com um tom mais falado, adicionando certo mistério a faixa marcada por uma bateria semelhante à bateria de marcha. A guitarra adiciona à música uma atmosfera dançante e a torna até mesmo uma das mais barulhentas do disco. 

A produção experimental, repleta de elementos synth, metálicos e dançantes, por vezes coloca a voz de Harry em segundo plano, como quem tem os vocais abafados pelas batidas frenéticas de uma boate. Mesmo nos momentos que os vocais têm destaque, eles estão a todo momento tomados por efeitos que compõem a atmosfera dance, como em “Taste Back” e “Pop”, que apresentam produções impecavelmente conduzidas pelos parceiros de longa data, Kid Harpoon e Tyler Johnson.

O hiato como acelerador criativo

Não é novidade que os três anos de hiato entre o último show da Love On Tour e o novo álbum foram anos de profundas experiências para Harry Styles. Entre boates pela Europa, festivais, maratonas e a escolha do novo papa, o artista precisou dar um passo para trás para recuperar o fôlego e voltar renovado. 

A nova era parece vir de uma ânsia de viver, retratada, inclusive, no clipe de “American Girls”, que traduz o que ele contou para o Zane Lowe durante entrevista. “Acho que, para mim, a música é bastante solitária em muitos aspectos”, explicou. Nos últimos anos, o cantor viu três de seus amigos mais próximos se casando e mergulhando de cabeça em novas aventuras. 

“Ao vê-los confiar em algo e arriscar para encontrar algo verdadeiramente gratificante, de uma forma que não é tão brilhante e emocionante quanto parece no papel, eu pensava: ‘Estou solteiro, então estou me divertindo muito’. E ‘American Girls’ é justamente sobre vê-los se casando, e existe uma magia quando você encontra a pessoa certa com quem quer estar, mas acho que vê-los fazer isso e perceber que não acontece sem riscos é algo muito significativo.”, completou. 

No vídeo, Harry aparece como mero espectador, enquanto os riscos reais são enfrentados por dublês. Isso reforça a necessidade pulsante que ele sentiu em sair da zona de conforto e testar novas coisas nos últimos anos. “Season 2 Weight Loss” segue na mesma linha lírica, usando de metáforas sobre perda de peso e autocuidado como forma de voltar para uma segunda temporada sendo a versão mais forte de si mesmo. 

Pista de dança melancólica

“Coming Up Roses” mostra que a pista de dança também guarda muita melancolia e um pouquinho de sofrimento. Acompanhado de uma orquestra de 39 músicos, a faixa se desenrola em uma crescente instrumental das mais marcantes na carreira de Harry Styles. A dramaticidade dos instrumentos conversa perfeitamente com a única composição inteiramente solo do cantor nesse disco, provando ser uma das mais pessoais que já produziu. 

Na mesma linha melancólica, a acústica “Paint By Numbers” segue uma progressão confortável de acordes no violão enquanto Harry canta sobre seu antigo relacionamento com a diretora Olivia Wilde. “Carregando o peso das crianças americanas cujos corações você parte / Foi uma tragédia quando você disse a ela “Eu não tenho nem trinta e três anos”?”. 

“Dance No More” retoma o alto astral e possui um dos maiores potenciais virais do disco. “Respect, respect your mother” reverencia a comunidade LGBTQIA+ principalmente dentro do surgimento da disco music. O trecho demonstra respeito pelas figuras que vieram antes e pavimentaram o caminho até aqui. 

“Você consegue ouvir a voz trazendo as notícias? Está tudo à sua espera” é o recado final do álbum na catártica “Carla’s Song”. A faixa de encerramento soa como um convite ao ouvinte para experimentar o mundo e aproveitar tudo aquilo que nos traz alegria. 

Mais Harry Styles do que nunca 

Ao abraçar uma estética mais barulhenta, experimental e, por vezes, desconcertante, Harry Styles não abandona sua essência artística e escolhe expandi-la. O resultado é um disco desafiador, mas que se revela extremamente coerente dentro da trajetória que ele vem construindo desde o início da carreira solo, ressaltando que uma de suas principais características é fugir da previsibilidade. 

Ao invés de se moldar ao que o mercado espera de um popstar, ele segue usando cada nova era como oportunidade de redescobrir o próprio som. É justamente nessa disposição de mudar sem perder a identidade que sua discografia continua evoluindo de forma orgânica, o consolidando como uma das principais referências para uma nova geração de homens no pop. 

“Kiss All The Time. Disco, Occasionally.” reforça que o artista está longe de esgotar suas possibilidades e, felizmente, sempre deixa espaço para continuar surpreendendo. 

Nota: 8/10

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