Wagner Moura, Kleber Mendonça Filho e o cinema brasileiro provaram que a vitória vai muito além de troféus.

Na noite do último domingo (15), milhões de brasileiros acompanharam a 98ª cerimônia do Oscar com o coração acelerado. E quando os envelopes foram abertos, a decepção foi imediata: “O Agente Secreto” saiu sem nenhuma estatueta. O longa dirigido por Kleber Mendonça Filho concorria em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco. Nas redes sociais, milhares de brasileiros invadiram o perfil do Oscar no Instagram com comentários furiosos, colocando a expressão “fomos roubados” entre os assuntos mais comentados do X.
Mas espera! Antes de entrar nessa onda de indignação, diga-se de passagem completamente compreensível, vale dar um passo atrás e enxergar a trajetória completa, porque a história de “O Agente Secreto” nesta temporada não começa nem termina no Dolby Theatre. E quando você vê tudo junto, percebe que o Brasil ganhou muito mais do que perdeu.
Para entender o que o filme brasieliro representa, é preciso voltar ao começo, e o começo foi Cannes, em maio de 2025, o festival de cinema mais prestigiado do mundo.
O longa-metragem recebeu 13 minutos de aplausos em sua estreia no festival e conquistou os prêmios de Melhor Direção e Melhor Ator. Ganhar duas premiações principais em Cannes simultaneamente é um feito raro para qualquer produção no mundo e extraordinário para um filme brasileiro. A partir dali, o efeito dominó foi inevitável.
A crítica internacional entrou em êxtase. Publicações como The Guardian, Variety, BBC Culture e New York Times passaram a tratar o filme não como “o representante brasileiro no circuito“, mas como uma das obras mais importantes do ano. O thriller político ambientado no Recife de 1977, que acompanha um professor em fuga de um passado misterioso durante a ditadura militar, tocou em algo universal: a memória, o trauma geracional e a resistência silenciosa de pessoas comuns diante de regimes opressores.
Ao longo dos meses seguintes, o filme acumulou mais de 159 indicações e 85 prêmios ao longo da temporada.
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Se Cannes foi o lançamento, o Globo de Ouro foi a confirmação de que “O Agente Secreto” estava jogando na liga dos grandes.
O Brasil fez história na cerimônia de 2026; foi a primeira vez que um filme brasileiro conquistou dois Globos de Ouro na mesma edição. O longa venceu como Melhor Filme em Língua Não Inglesa, a segunda vez que o Brasil levou esse prêmio e Wagner Moura foi premiado como Melhor Ator em Filme de Drama, superando nomes como Oscar Isaac, Dwayne Johnson e Jeremy Allen White.
Com a conquista, Moura se tornou o primeiro brasileiro a receber a estatueta de Melhor Ator em Filme de Drama no Globo de Ouro. Em seu discurso emocionante, o ator falou sobre os temas centrais do filme: “O Agente Secreto é um filme sobre memória, ou sobre a falta de memória, e sobre trauma geracional. Acho que, se o trauma pode ser passado entre gerações, os valores também podem.”. E encerrou em português, diretamente para o Brasil: “Viva o Brasil, viva a cultura brasileira”.
O Globo de Ouro é historicamente considerado o principal termômetro do Oscar. As duas vitórias consolidaram “O Agente Secreto” como uma das principais apostas para o Oscar 2026, repetindo a trajetória de “Ainda Estou Aqui” no ano anterior.
Quando a Academia anunciou os indicados ao Oscar 2026, o Brasil vibrou de um jeito diferente. O longa concorreu em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Direção de Elenco (categoria que estreou nesta edição do Oscar).
Com isso, “O Agente Secreto” igualou a maior marca já alcançada por um filme brasileiro na premiação, repetindo o total histórico de indicações de “Cidade de Deus” em 2004. Para quem acompanha o cinema nacional, esse número tem peso enorme, “Cidade de Deus” é um marco do audiovisual mundial, e chegar ao mesmo patamar não é pouca coisa.
Não ganhou nenhuma estatueta? Verdade. Mas chegar ao Oscar como um dos filmes mais comentados e respeitados da temporada, competindo de igual para igual com produções de Hollywood em categorias principais como Melhor Filme, já é uma vitória em si.
Uma das formas mais poderosas de medir o impacto de um filme é ouvir o que os especialistas do mundo inteiro têm a dizer. Carlos Aguilar, do The Playlist, classificou o filme como “uma obra-prima imponente, imersa em história”. Peter Bradshaw, do britânico The Guardian, deu 5 de 5 estrelas. A crítica da BBC Culture o descreveu como um “thriller político estiloso e vibrante”. A Variety o chamou de “magnífico”, descrevendo-o como uma imersão sensorial nos sons, imagens e clima sufocante do Recife de 1977.
Quando publicações como The New York Times, The Guardian, Variety e BBC convergem em elogios a um filme brasileiro feito a partir do Recife, algo extraordinário aconteceu.
Além da crítica especializada, “O Agente Secreto” foi também um fenômeno popular. O filme levou mais de 2 milhões de brasileiros aos cinemas, gerou filas, debates e uma onda de orgulho nacional que extrapolou as salas de exibição. O filme estimulou turistas a visitarem o Recife para conhecer as locações, com passeios organizados especialmente por causa do longa.
Os números de bilheteria dizem tudo sobre o tamanho do fenômeno. Com um orçamento de R$ 28 milhões, sendo R$ 19 milhões de origem brasileira e o restante de uma coprodução com França, Alemanha e Holanda, o filme gerou um retorno global de US$ 17,9 milhões (cerca de R$ 94,2 milhões), segundo o Box Office Mojo, número ainda subdimensionado por não incluir a bilheteria completa dos EUA e de outros mercados.
A história do cinema está cheia de filmes que não ganharam o Oscar e se tornaram clássicos eternos. “2001: Uma Odisseia no Espaço”, “Cidadão Kane”, “Pulp Fiction”… todos perderam a estatueta principal. O prêmio importa, claro. Mas não é o único termômetro da grandeza de uma obra.
“O Agente Secreto” saiu do Oscar 2026 sem nenhuma estatueta. Mas saiu com o respeito do mundo, o amor de milhões de espectadores, dois Globos de Ouro, dois prêmios em Cannes, mais de 85 prêmios ao longo da temporada, e a certeza de que o cinema brasileiro está no centro das atenções globais mais uma vez.
Se isso não é uma vitória, então precisamos redefinir o que a vitória significa!
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