26 de julho de 2015 por Charlles Correa.

Estamos alimentando um monstro. Um monstro que tem um metabolismo rápido e processa mais informação do que você, eu ou todos os moradores de sua cidade juntos, na metade do tempo. Ele vive em nossas casas, está ao nosso lado durante o jantar, quando acordamos e até mesmo quando estamos tomando banho cantando a música do nosso artista favorito.

Acontece que, cada vez que você liga seu smartphone, abre sua biblioteca de músicas ou abre o spotify pra escutar pela vigésima terceira vez no dia aquele seu artista favorito, esse monstro se alimenta das oportunidades que você poderia dar para a banda do seu amigo que não tem nem mesmo 250 visualizações no YouTube, mas preferiu escutar mais uma vez o último disco do Arctic Monkeys.

Semana passada, achei um gráfico em algum lugar da internet que dizia que mais de 20% do catálogo de músicas do Spotify (que é enorme) nunca teve uma visualização sequer, ou seja, existem aproximadamente mais de 4 milhões de músicas que nunca foram escutadas nem mesmo uma vez, nem por quem colocou elas lá.

Sabendo disso, um grupo de programadores desenvolveu um site que lista todas essas músicas nunca reproduzidas do Spotify e as disponibiliza de forma aleatória para você escutar instantaneamente. O nome do site é “Forgotify”, e usa parte do código do Spotify, porém não possui nenhuma ligação direta com o aplicativo original. Muito simples e prático.

Mas então comecei a pensar, se tudo isso que fazemos para ajudar o cenário independente e a música de forma geral é relevante. Será que é válido? Infelizmente não. Não é, e está longe de ser.

Quando você escuta uma música pelo Forgotify, aquela música será escutada por você e provavelmente ninguém nunca mais escutará ela novamente, já que ela saiu do catálogo de músicas nunca reproduzidas pelo Spotify, vai cair novamente no esquecimento.

Quando você raramente tira um tempo pra escutar a banda do seu amigo e não deixa um comentário, não compartilha nem dá sua opinião, aquela música vai ter apenas mais uma visualização, vai criar a falsa sensação de que tudo está indo relativamente bem, quando na verdade, os músicos que gastaram tanto dinheiro com a produção da música, que perderam semanas trabalhando no material que você viu em 3 minutos estão pensando em desistir, depois de uma semana quando as visualizações caírem pela metade.

O que me faz pensar, será mesmo que São Paulo, quiçá o Brasil, tem mesmo uma cena independente em formação? Não existe autossuficiência nisso, e o que se faz não parece relevante tampouco suficiente. Não são apenas os músicos que formam um cenário. São os espectadores, os donos de estabelecimentos, as pessoas que passam nas estações de metrô todos os dias, renegando o violinista que toca chorando, enquanto alimentam nosso monstro com seus headphones reproduzindo pela trigésima vez o último single da Selena Gomez.

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