Entrevista: Detonautas fala sobre ‘Potinho de Veneno’, novo álbum e mais

Roberto de Carvalho ouviu e adorou a música

Foto: Herbert Cardoso/Divulgação

Depois de dois anos sem lançar faixas inéditas, o Detonautas está de volta — e em plena transformação. No último dia 31 de outubro, a banda divulgou “Potinho de Veneno”, single que abre as portas para uma fase ousada, visual e cheia de nuances tropicais. A música, inspirada nas obras de Rita Lee, marca não só o reencontro da banda com o estúdio, mas também com sua própria essência criativa.

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Em conversa com o Tracklist, Tico Santa Cruz detalhou o processo por trás da faixa — escrita em 2023, mas lançada no momento certo —, e antecipou o que vem por aí no novo álbum previsto para 2026.

O cantor revelou ainda que o projeto mistura pop, rock e tecnobrega, traz histórias e crônicas inéditas na discografia do grupo e carrega a ambição de redefinir a identidade musical do Detonautas Roque Clube.

O vocalista também falou sobre o encontro simbólico com o legado de Rita Lee e Roberto de Carvalho, a gravação no estúdio recém-batizado com o nome do casal, e a emoção de ver o próprio Roberto elogiar a faixa: “Ele achou a música tão daora que disse que nem tinha o que acrescentar”.

Tico refletiu ainda sobre o papel do Detonautas no cenário atual, as mudanças no rock brasileiro e a importância de continuar dialogando com as novas gerações. “Nosso papel é popularizar o rock. Se a gente ignora o jovem, ignora o futuro”, resumiu.

A seguir, leia a entrevista completa com Tico Santa Cruz, vocalista do Detonautas:

Detonautas comenta novo single, novo disco e mais

Potinho de Veneno” marca o primeiro lançamento inédito do Detonautas em dois anos. Como foi esse tempo de pausa criativa?

O “Potinho de Veneno” foi lançado agora em outubro de 2025, mas eu escrevi em 2023, no meio de 2023. Então, de certa forma, a pausa que houve foi só entre um lançamento e outro. O processo de criatividade permaneceu, eu continuei escrevendo outras músicas, mas essa foi uma música que se destacou, que chamou a atenção.

O Detonautas costuma dar um intervalo de um disco para o outro. Quando existia essa demanda, digamos assim, do mercado de lançar um disco por ano etc., como as coisas mudaram muito, o formato mudou muito de 2000 para cá, todas as vezes que a gente tem alguma música que pode ser potencialmente uma música criativa, interessante, a gente coloca pra jogo.

A questão é que a gente não tinha o interesse, naquele momento — em 2023, 2024, quando tava trabalhando o acústico — de colocar essa música pra jogo. E foi muito bom que a gente não tenha colocado, porque ela veio no momento certo, né? Quando a gente assinou com a Deck Discos. Foi o “Potinho de Veneno” que nos colocou lá, né? Foi essa canção que nos colocou lá.

Essa faixa abre caminho pra um novo álbum, previsto para 2026, que promete redefinir a identidade musical do Detonautas Roque Clube. O que mais vocês podem nos contar dessa nova fase?

Exatamente. Essa música abre um caminho. Como eu falei, eu tinha escrito várias outras, mas ela foi a que se destacou. E, quando a gente chegou na Deck, nossa ideia era fazer um álbum de regravações — tanto que a gente lançou, esse ano, o ‘DVersões’, que era um álbum de músicas que o Detonautas já tocou em algum momento da banda ou que a gente tinha vontade de regravar etc.

Quando a gente chegou pra Deck, a gente mostrou esse projeto e, num primeiro momento, não foi do interesse do Rafael Ramos avançar com um projeto como esse. Porém, quando a gente mostrou o “Potinho de Veneno” pra ele, ele ficou muito entusiasmado e falou assim: “Essa aqui é a música que a gente quer”. E aí ele falou brincando, né: “Vocês precisam fazer mais nove, dez músicas iguais a essa”.

Aí eu falei: “Bom, agora a gente tem um bom problema pra resolver”, porque a gente não tinha nove músicas iguais a essa. Na verdade, a gente tinha feito essa produção junto com o Pablo Bispo e com o Ruxell, que trouxeram esse frescor pro Detonautas, e, nesse processo, a gente começou a trabalhar.

O processo foi muito positivo porque, de fato, redefiniu os passos criativos do Detonautas e apontou pra uma outra direção. O Pablo e o Ruxell são fundamentais, junto com o Rafael, nessa história. Eles conseguiram administrar a forma como a gente cria e, ao mesmo tempo, acrescentar elementos novos, alquimias novas.

Então, foi muito positivo pra gente fazer esse disco com eles. Eu definitivamente acredito que o que vem por aí define, sim, uma nova etapa do Detonautas, um novo capítulo da nossa história.

O single tem um quê de homenagem, mas também de reinvenção. Em que momento “Potinho de Veneno” deixou de ser “inspirado por Rita” e virou uma música 100% Detonautas?

Na verdade, a inspiração da música veio, como eu já comentei, de leituras que eu fiz da biografia da Rita. Ao mesmo tempo em que eu estava lendo a biografia dela, eu estava ouvindo os discos. Então isso, com certeza, atiçou a minha mente: o vocabulário, a forma de escrever, até mesmo algumas expressões que são parte dessa influência.

Agora, quando a gente foi fazer a sonoridade — ou seja, botar as guitarras, colocar a bateria, colocar os elementos criativos no sentido da construção do arranjo —, aí transborda o Detonautas. O Detonautas vem justamente transformando, digamos assim, uma canção que eventualmente poderia ter outros tipos de roupagem, mas que, com a nossa identidade, a gente conseguiu construir.

Tanto que, quando a gente mandou essa música para o Roberto de Carvalho — porque a gente queria uma participação dele no disco, achava que era legal que ele estivesse nessa história, uma vez que ele faz parte total da construção também da história que ele tem junto com a Rita —, ele falou: “Eu não tenho nada que eu possa fazer nessa música, porque já está tudo aí”.

Então, a gente até se sentiu, de certa forma, feliz por conta dessa colocação e, ao mesmo tempo, ficou o desejo de, em algum momento, a gente ter essa participação do Roberto com a gente em alguma outra canção. Não aconteceu nesse disco, mas não ficou nenhuma porta fechada, muito pelo contrário. Deixamos em aberto a possibilidade de, no futuro, de repente, escrever alguma coisa junto, justamente por ter tido essa conexão em algum momento.

O álbum que chega em 2026 vai seguir a linha do “Potinho de Veneno” ou cada faixa terá um universo próprio dentro do disco?

O álbum tem uma identidade muito própria. É difícil ainda falar sobre ele porque a gente ainda está, na verdade, construindo internamente de que maneira vai contar, vai falar sobre esse disco.

Ele tem 11 faixas. O que eu posso adiantar é: são faixas completamente diferentes de tudo que o Detonautas já fez até hoje. Tem temas, formas de falar sobre certos assuntos que são completamente diferentes de tudo que eu já escrevi, até porque tem a participação do Pablo também escrevendo junto comigo. Então existem abordagens que são muito diferentes: crônicas, histórias, coisas que o Detonautas talvez tenha demorado a abordar na sua história, na sua trajetória.

Mas ele é um disco de pop rock brasileiro, com uma identidade, com uma sonoridade e com letras que fazem parte do imaginário coletivo do rock brasileiro. E é “brasileiro” no melhor sentido da palavra, no que diz respeito à cultura.

A gente conseguiu avançar, em vários aspectos, em vários lugares, com estratégias de criação que nos levaram aos botecos do Nordeste, que nos levaram aos bailes funk do Rio de Janeiro, nos levaram a cenários cinematográficos que a gente foi construindo ao longo desse processo e que dialogam muito bem com a cultura brasileira, sendo feitos por uma banda de rock.

E que coincidência incrível: vocês gravaram o single no estúdio recém-inaugurado que leva o nome da Rita e do Roberto. O próprio Roberto Carvalho ouviu e elogiou a música, dizendo que “tá tão daora que ele nem tinha o que acrescentar”. O que vocês acham que a Rita diria se pudesse ouvir a faixa?

Eu costumo acreditar que essas coincidências não acontecem. Eu acho que são sintonias às quais a gente se conecta, e aí acaba nos levando a um lugar que tem a mesma sintonia.

Então, eu acho que foi isso. De certa forma, eu entrei nessa sintonia junto com a leitura que eu estava fazendo da biografia da Rita. Veio pra mim essa música, vieram outras músicas… Em algum momento, a gente se conectou com essa energia que ela movimenta através da história dela, das canções que ela construiu etc.

Quando a gente foi gravar, chegamos no estúdio da Warner Chappell Music, que é a nossa editora, e fomos convidados a ir para esse estúdio. A gente não sabia, nem eles sabiam que tinha essa história por trás. Chegamos no estúdio, vimos um pôster gigante da Rita Lee; eu não tinha visto que na porta estava escrito o nome dela, porque a gente entrou direto, né?

E aí, quando a gente ficou falando sobre isso — “cara, tem uma foto da Rita ali” —, o técnico que estava junto com a gente lá, e depois o próprio Marcel Klein, que também é o diretor-geral da Warner Chappell, falaram: “Olha, esse estúdio aqui foi batizado com o nome da Rita. Inclusive o Roberto de Carvalho veio até aqui e tudo”.

Aí a gente ficou sabendo dessa história e contou a história de que a música tinha sido feita nessa inspiração. Então, no final das contas, tudo se conecta. Tudo acabou se conectando nesse lugar.

É difícil falar sobre uma situação como essa. O Roberto deu a opinião dele, ouviu a música e, de fato, falou que não tinha nada a acrescentar, que gostou da canção, como eu falei anteriormente. Mas é difícil dizer o que a Rita falaria, eu não tenho a menor ideia, porque a Rita era uma pessoa, primeiro, muito sincera, muito honesta em tudo que fazia.

Se ela gostasse, com certeza iria elogiar. Se não gostasse, eu também acho que ela iria dizer, do jeito dela, que não gostou. Mas eu acho que a música é, de fato, boa. Acho que a gente tem conseguido buscar nessa sonoridade brasileira e, ao mesmo tempo, cinematográfica, um lugar em que a Rita transitou muito bem quando construiu a obra dela. Inúmeras músicas dela trazem essa sensação.

Então, eu acho que, se ela estiver nos observando de algum lugar, deve estar feliz de que, de alguma maneira, a música dela influenciou a gente nesse momento.

Depois de mais de duas décadas de estrada, o que ainda surpreende o Detonautas no processo de criar?

Cada disco que nós fizemos nessas quase três décadas — na verdade, o Detonautas é de 97, então em 2027 a gente faz 30 anos de existência — passou por cenários muito diferentes, métodos diferentes de criação, universos diferentes de inspiração.

Eu, como alguém que escreveu 99% da obra do Detonautas, passei por muitas transições: transições espirituais, existenciais, filosóficas, transições de várias naturezas literárias etc. Então é difícil dizer.

Agora, inevitavelmente, o que eu posso confirmar e afirmar categoricamente é que esse disco nos entusiasmou e nos deixou muito felizes com essa criação, com esse processo criativo. A última vez que eu senti uma sensação como essa, como escritor, como compositor, foi no Retorno de Saturno.

E eu acho que depois eu acertei ainda algumas canções muito bem acertadas, né? No O Retorno de Saturno tem o “O Dia Que Não Terminou”; no O Saga Continua tem o “Cara de Sorte”, que foi muito bem acertada; acho que no disco 6 também tem “Por Onde Você Anda”… Estou falando das músicas que, de alguma maneira, se popularizaram entre os fãs do Detonautas e pra fora da bolha, né?

Mas eu acho que esse disco, em especial, é um divisor de águas, sem dúvida nenhuma. Isso surpreendeu a todos nós. No final, quando a gente foi ouvir o disco todo, eu ainda me pego pensando: “Caraca, como é que a gente conseguiu chegar nesse resultado?”.

Mas eu sei como é que a gente conseguiu chegar nesse resultado: a gente se permitiu ser conduzido pelo Pablo, pelo Ruxell, pelo próprio Rafael Ramos e pela própria intuição que nós tínhamos de que dava pra fazer alguma coisa diferente. E, de fato, foi feito.

O rock brasileiro mudou muito desde o primeiro disco de vocês. Como o Detonautas se enxerga nesse novo cenário, em meio a tantas fusões de gêneros e artistas independentes ganhando força?

Eu acho que a grande virtude do Detonautas, ao longo desses anos todos, foi ter se adaptado a todas essas transições de gênero que aconteceram dentro do rock.

O Detonautas se tornou relevante porque conseguiu escrever alguma coisa que, talvez, no passado as pessoas tenham curtido, tenham gostado, tenha marcado uma geração, mas que, de alguma maneira, faz sentido pra geração atual.

Então, a gente falou de algo lá atrás, há 23 anos, que hoje uma menina de 15 anos, um garoto de 16 anos escuta e faz sentido pra ele. Eu acho que essa é talvez a maior virtude que a gente alcançou nessas quase três décadas em que estamos atuando dentro de um mercado que se modifica não só na forma de consumo, mas também no diálogo.

E o grande desafio desse disco é saber se ele vai dialogar não só com o público que ouviu o Detonautas através do pai e da mãe — ou seja, que trouxe essa conexão por conta de uma memória afetiva dos pais etc. —, mas também se a gente vai conseguir dialogar com os jovens que talvez não tenham tido contato com Detonautas antes.

É isso que a gente está tentando fazer: dialogar com o maior número de pessoas possível e apontar, da nossa forma, uma direção pra juventude, que eu acho que é onde está o rock.

Quando a gente ignora o jovem, ignora o adolescente, ignora essas crianças todas que podem ser potencialmente ouvintes de rock — como nós fomos quando éramos crianças —, a gente corre um grande risco de se tornar um segmento muito estreito dentro do próprio rock. E o papel do Detonautas é popularizar o rock.

Pra fechar: quais são os próximos passos? Tem mais clipes, turnê, ou até colaborações no horizonte? Dá pra soltar algum spoiler pro público?

Bom, os próximos passos são: lançar um single que está previsto para o início do ano e, logo em seguida, quando começarem as movimentações no Brasil… Ano que vem é um ano muito conturbado, turbulento, porque vai ter Copa do Mundo, vai ter eleição, então tem um monte de coisa que vai entrar em pauta.

A gente está preparando o lançamento para antes de todas essas pautas que vêm, pra que a gente possa, obviamente, consolidar a sonoridade e as pessoas estarem de cabeça aberta pra esse momento de lançamento.

Depois disso, a gente já começa a turnê, com as músicas do disco novo entrando nesse repertório, que já é um repertório muito vitorioso — a gente percebe isso nas turnês que tem feito ultimamente.

Colaborações não estão previstas pra esse momento, né? A ideia é focar realmente na construção dessa nova identidade. Então não tem feat programado. A gente entende que esse momento é de reafirmação, de construção dessa nova roupagem da banda.

E eu acho que, de “spoiler” pro público, é difícil pensar em alguma coisa que não entregue o jogo, mas acho que o spoiler é o seguinte: as pessoas vão dançar com esse disco.


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