Especialista em música e cultura da Deezer analisa como o TikTok mudou a lógica da indústria musical

Durante anos, o sucesso na indústria da música parecia seguir um caminho previsível: lançamento, rádio, clipe e, eventualmente, o esquecimento gradual. Mas a lógica das redes sociais, em especial após o surgimento do TikTok, mudou completamente essa dinâmica. Em meio a trends, edits e vídeos virais, os lançamentos musicais há cinco, dez ou até vinte anos voltam a ocupar playlists, charts e viram, até mesmo, tendências como se fossem novidades recém-descobertas.
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Nos últimos meses, um dos exemplos mais recentes desse fenômeno foi “Babydoll”, de Dominic Fike, lançada em 2018, que voltou a viralizar nas redes sociais e impulsionou novamente os números do cantor nas plataformas de streaming. A canção ganhou novo alcance após ser usada em vídeos no TikTok e acabou retornando às paradas musicais anos depois do lançamento original.
O efeito também alcançou outros cantores. Rihanna, que está há 10 anos sem lançar um álbum inédito, viu “Breakin’ Dishes”, faixa do disco Good Girl Gone Bad“, de 2008, voltar às principais paradas musicais e ultrapassar 900 milhões de reproduções nas plataformas digitais.
O movimento, no entanto, está longe de ser isolado. Nos últimos anos, artistas passaram a revisitar sucessos antigos impulsionados por trends digitais. Foi o caso de “Freak Le Boom Boom”, de Gretchen, e de “party 4 u”, de Charli XCX, que ganharam novas projeções e alcance entre públicos mais jovens após viralizarem nas redes.
Ao mesmo tempo em que transforma músicas antigas em novos hits, o TikTok também redefine a própria lógica da indústria musical. Para entender como esse processo impacta artistas, gravadoras e o futuro da música pop, o Tracklist conversou com a especialista em música e cultura da Deezer Laura Gonzalez.
Como você vê a influência do TikTok no ressurgimento de músicas antigas na indústria musical?
Na minha visão, ele faz parte de uma transformação importante na forma como o público descobre e ressignifica músicas. Hoje, faixas antigas conseguem voltar com força porque passam a circular em novos contextos, ligadas a trends, memes, narrativas e emoções muito específicas. Isso faz com que músicas de catálogo ganhem novos significados e sejam descobertas por públicos que talvez não tivessem contato com elas de outra forma. Em um cenário em que o streaming ampliou o valor do catálogo, esse movimento ajuda a prolongar a vida das músicas.
O que explica o sucesso repentino de faixas lançadas há anos, como “Babydoll”, de Dominic Fike, dentro da lógica do TikTok?
Para mim, o que explica esse sucesso é que, nesse ambiente, a data de lançamento importa menos do que a capacidade da música de comunicar alguma coisa no presente. Às vezes, um trecho antigo passa a traduzir uma sensação, uma estética ou um tipo de humor que conversa muito com o momento atual. Quando isso acontece, as pessoas começam a reutilizar aquela faixa em diferentes contextos, e a repetição desperta curiosidade. A partir disso, muita gente vai atrás da música completa e passa a ouvi-la com mais frequência nas plataformas de streaming.
Na sua avaliação, esse tipo de viralização é mais orgânico ou já existe uma estratégia das gravadoras e artistas para impulsionar esses “revivals”? E sim, como avalia esse impacto na construção de carreiras?
Acho que hoje acontece das duas formas. Muitos revivals nascem de forma espontânea, com fãs e criadores resgatando uma música porque ela faz sentido naquele momento. Mas também existe, sim, um olhar estratégico de artistas e gravadoras para perceber esses sinais e reagir rápido. Do meu ponto de vista, o impacto é muito positivo quando esse movimento não fica só no pico viral e consegue abrir caminho para uma redescoberta mais ampla da obra do artista.
Casos como “Freak Le Boom Boom”, de Gretchen, e “party 4 u”, de Charli XCX, mostram artistas reaproveitando esses momentos. Como isso impacta a carreira deles a longo prazo?
Eu acho esse movimento muito interessante quando o artista entende o que está acontecendo e participa da conversa de forma natural. Quando ele reconhece que uma música antiga voltou a circular, isso aproxima o público e fortalece a relação com os fãs, que se sentem vistos. No longo prazo, esse tipo de resposta pode reativar o catálogo, renovar a imagem do artista e até conectar sua trajetória a uma geração que ainda não o acompanhava de perto.
Quando um hit antigo volta a fazer sucesso, isso pode redefinir a imagem ou a fase de um artista? Ou ele tende a voltar pro esquecimento?
Acredito que pode redefinir a percepção sobre o artista, principalmente se ele souber contextualizar esse retorno dentro da sua fase atual. Um hit que ressurge pode funcionar como ponto de reentrada na cultura e abrir espaço para uma redescoberta mais ampla da obra. Mas isso não acontece automaticamente. Se não houver posicionamento, continuidade e novos desdobramentos, o risco de esse movimento se limitar a um pico passageiro continua existindo.
No caso de públicos mais jovens descobrindo músicas antigas, como isso transforma a relação entre gerações na música?
Esse movimento é muito positivo porque cria repertórios compartilhados entre gerações diferentes. Uma música que antes estava muito ligada à memória afetiva de um público passa a ser descoberta como novidade por outro. Isso renova o valor cultural do catálogo e estimula trocas entre pais, filhos, amigos e comunidades online. No fim, a música deixa de ser só um marcador de época e passa a funcionar como ponto de encontro.
Sabemos que artistas vêm criando músicas já pensando em possíveis trends futuras, o mesmo acontecia antigamente com as rádios. Podemos dizer que apenas as plataformas mudaram, mas o processo é o mesmo? Qual a diferença entre eles?
Existe uma lógica parecida, no sentido de que a indústria sempre buscou entender quais canais têm mais capacidade de amplificar uma música. Mas a grande diferença é que, na rádio, essa circulação era mais centralizada, enquanto nas redes sociais ela é muito mais participativa e acelerada. Hoje, o público não apenas consome, ele recorta, ressignifica e impulsiona trechos específicos. Então, mais do que mudar o canal, mudou também a dinâmica de construção do sucesso.
Há riscos nesse modelo, como uma dependência excessiva de viralização ou uma carreira pautada por trends passageiras?
Acho que sim. A viralização pode ser muito poderosa como ferramenta de descoberta, mas ela sozinha não sustenta uma carreira. O grande desafio está em transformar esse alcance momentâneo em base de fãs, recorrência e identidade artística. Quando isso não acontece, o artista pode ficar preso a uma lógica de atenção imediata, sem conseguir manter relevância no médio e longo prazo.
Você acredita que esse movimento tende a se intensificar nos próximos anos ou pode perder força com mudanças no comportamento das plataformas?
A tendência é que essa dinâmica continue forte nos próximos anos, porque o público está cada vez mais habituado a descobrir músicas a partir de vídeos, referências culturais e conteúdos que circulam com muita velocidade. Hoje, uma faixa pode ganhar novo fôlego não apenas no momento do lançamento, mas também quando passa a fazer sentido em uma nova conversa online. Os formatos podem mudar ao longo do tempo, mas essa lógica de redescoberta no ambiente digital deve seguir relevante.
Pensando no futuro da indústria, o TikTok pode se consolidar como o principal motor de descoberta musical, superando rádios e streaming tradicionais? Ou isso já é uma realidade?
Hoje, as redes sociais têm um papel central na descoberta musical, porque aceleram muito a circulação de referências, trechos e conversas em torno das faixas. Mas isso não significa que substituem completamente outros meios. Rádio, streaming, recomendações entre amigos, curadoria e até repertório familiar continuam influenciando muito o que as pessoas ouvem. O que mudou foi que a descoberta ficou mais fragmentada, mais rápida e muito mais conectada ao contexto cultural.
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