Análise: J Balvin é um dos responsáveis pelo atual momento do reggaeton no Brasil

Artista se apresentou no último dia de The Town 2025

Redação TracklistNotíciasColunas16 de setembro de 2025

J Balvin no Brasil durante show no The Town 2025. Foto: Isabella Zeminian/Tracklist

Por Ludmilla Correia – Anitta pode ter aberto as portas de J Balvin para o Brasil – o hit “Downtown”, de 2017, traz a parceria dos artistas e ajudou a popularizar o cantor por aqui. Entretanto, Balvin fez questão de conhecer e entender a complexidade do mercado brasileiro. Se hoje estamos vivendo o que alguns chamam de advento do reggaeton no país, muito se deve à brasileira, mas J Balvin também é um dos responsáveis por isso.

O cantor colombiano, um dos principais nomes do reggaeton em nível global, foi uma das atrações do The Town, festival que aconteceu em São Paulo nos dias 6, 7, 12, 13 e 14 de setembro. A participação do cantor no palco Skyline, principal do festival, é muito mais que um sinal do crescimento do reggaeton no Brasil; são frutos de uma semente plantada há quase dez anos.

Por coincidência, o show de Balvin aconteceu no último domingo (14), e o Dia Internacional do Reggaeton foi comemorado no dia seguinte – o que torna esse feito ainda mais significativo para a comunidade latino-brasileira.

Se você não é familiarizado com o nome de J Balvin, não se preocupe: é certo que já ouviu algum de seus hits, como “Mi Gente”, que ganhou remix com Beyoncé; “La Canción”; ou ainda “X” e “Azul”, que recentemente viralizaram no TikTok. Natural de Medellín, o cantor de 40 anos, nascido José Álvaro Osorio Balvin, é conhecido como embaixador do reggaeton — título que lhe foi dado por ser um dos primeiros a levar as batidas contagiantes do ritmo aos extremos do globo e promover crossovers inusitados.

Além de seus vários feats com artistas nacionais, ele já colaborou com nomes como Diplo, Dua Lipa, Black Eyed Peas, Usher, Rosalía, Ed Sheeran, Metallica, Justin Bieber, Selena Gomez, Chris Brown, Cardi B e Imagine Dragons.


J Balvin e sua conexão com o Brasil 

Sua história com o público brasileiro começou em 2016, com o lançamento de “Energía”, que ganhou uma versão própria para o nosso mercado, batizada de “Brazil Edition”. O disco conta com as participações especiais de Projota e Anitta.

O rapper paulista participou do remix de “Tranquila”; já a patroa dividiu os vocais com o colombiano na versão em portunhol de “Ginza”. Essa canção foi a chave e a ponte de ligação entre a brasileira e Balvin, abrindo as portas para Anitta no mercado hispânico e para o reggaetonero no público brasileiro. Desde então, eles viraram mais que amigos: “hermanos” e colecionam várias parcerias, como “Machika” (2018), “Bola Rebola” (2019) e “No Más” (2022), para além do sucesso “Downtown” – cujo clipe, até o fechamento deste texto, ultrapassou 900 milhões de visualizações no YouTube.

Balvin, inclusive, sempre expressa sua gratidão à brasileira. “Te amo, Anitta, obrigado por abrir as portas para mim”, disse o cantor durante o show no The Town.

Outros nomes brasileiros já colaboraram com o colombiano, como o duo Tropkillaz, MC Fioti e Pedro Sampaio — estes dois últimos, inclusive, participaram da apresentação do colombiano no festival-irmão do Rock in Rio.

No entanto, o trabalho de Balvin para conquistar seu espaço no Brasil vai além das parcerias. Ele foi o primeiro artista da nova geração do reggaeton a se apresentar por aqui. Em 2022, fez um show — ainda que em formato reduzido — no Allianz Parque, em São Paulo. Alguns céticos acreditam que o feito foi um fiasco, mas, na verdade, representou apenas mais  adubo para as sementes plantadas lá em 2016.

“Esse show foi um investimento a longo prazo e é muito importante para a cultura latina aqui no Brasil. Sabemos que os brasileiros foram tomados pela cultura europeia, pela cultura norte-americana e ficaram completamente distanciados da latina”, pontua Dieguito Reis, músico e DJ da festa Bogotá, uma das principais noites de música latina em São Paulo.

O pensamento de Dieguito também já foi compartilhado por outros profissionais do mercado musical, como César Figueiredo, agente de talentos da agência internacional WME. Em entrevista à Billboard Brasil, o executivo falou sobre o caminho que um artista internacional muitas vezes precisa percorrer para ter êxito no mercado nacional. No entanto, alertou, os resultados não são imediatos.

“O artista vai lembrar que vai deixar seu país, onde tem notoriedade, milhões de ouvintes, cachê altíssimo, e vai para um território onde ninguém o conhece. Empresários e artistas precisam entender que é um caminho a ser trilhado a longo prazo”, disse. 

Para além de experimentar ritmos nacionais e consolidar a base de fãs já existente, outro ponto de destaque na jornada de Balvin foi realizar uma turnê especial de Carnaval em praças não convencionais.

“Ele sempre valorizou o funk. Um exemplo disso é o crescimento do ritmo na Colômbia. J Balvin foi um dos poucos que saiu do eixo Rio–São Paulo, chegando até Salvador, por exemplo”, ressalta Dieguito Reis. A turnê mencionada pelo DJ aconteceu em 2024 e também passou por Santa Catarina e Pernambuco.

J Balvin no Brasil durante show no The Town 2025. Foto: Isabella Zeminian/Tracklist

Agora, todos querem ser latinos

Segundo dados do Spotify, em um artigo publicado pela UBC em 2023, o reggaeton teve um salto de audições de 147% em dois anos, enquanto o trap latino cresceu 187%.

Esse movimento segue crescendo, e a prova disso é que outros artistas de língua hispânica vêm conquistando o público e investindo em apresentações em solo brasileiro. Somente em 2025, a agenda conta com Cat7riel e Paco Amoroso, J Balvin, Jesse & Joy, Karol G e Rauw Alejandro. Mas também não podemos deixar de mencionar Bad Bunny, que fará dois shows em 2026 no Allianz Parque – a primeira data esgotou.

“O reggaeton pop (comercial) está se consolidando no Brasil, ainda mais por conta desse movimento latino, que está muito forte atualmente. Antes, as pessoas não ligavam e não havia essa sensação de pertencimento latino-americano. As coisas estão diferentes; fatores como a música e a moda também influenciam isso”, pontua Kyene Becker, jornalista e pesquisadora da vieja escuela (velha guarda) do reggaeton.

“Hoje, nós temos festas dedicadas ao ritmo e o escutamos na rádio. Isso era algo que não acontecia nos anos 2000; é muito legal ver esse movimento”, acrescenta.

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