Dentre as estatuetas conquistadas pelo artista, destaca-se Gravação do Ano

Um dos maiores rappers da geração e um dos gigantes nomes da história do gênero, Kendrick Lamar subiu ao palco do Grammy 2026 para bater recordes mais uma vez. O artista ganhou cinco gramofones dourados na premiação do último domingo (1) e se tornou o primeiro rapper a levar uma das categorias principais mais de uma vez. Com “Luther”, faixa em parceria com a cantora SZA, Kendrick venceu Gravação do Ano pelo segundo ano consecutivo, feito quase impensável para um artista de hip-hop.
A canção “Luther” foi a mais popular do “GNX”, último disco do artista. No Spotify, ela soma mais de 1,3 bilhão de reproduções. A faixa é especial para Kendrick, porque o rapper a construiu em torno de um sample da música “If This World Were Mine” escrita por Luther Vandross e Cheryl Lynn em 1982 e interpretada popularmente por Marvin Gaye e Tammi Terrell. O nome dado é, inclusive, em homenagem ao compositor.
No palco da premiação, no discurso de aceitação do Grammy, Kendrick afirmou que Luther Vandross é um de seus artistas favoritos. O rapper também lembrou que a única condição para liberação do sample foi que não tivessem xingamentos na letra. “Eles falaram: pode usar, é só não xingar”, riu.
A vitória foi comemorada pelo fato de que o artista se viu prestigiado por uma canção que homenageia pessoas essenciais para a própria história. “Nós sabemos o quão importante é essa composição dele (Luther) e de Cheryl. Colocar nossa voz nessa música prova que a gente é merecedor de estar no mesmo lugar que eles em alguma instância”, discursou o músico.
Ainda era possível que a noite fosse melhor para Kendrick, que poderia se tornar o primeiro rapper homem a ganhar Álbum do Ano. No entanto, “GNX”, disco pelo qual concorria, perdeu o prêmio principal para o excelente “Debí Tirar Más Fotos” de Bad Bunny. O cantor, que começou no trap e reggaeton e que depois se tornou uma referência absoluta para toda música latina, levou o Grammy mais merecido desta edição, uma vez que o álbum com o qual disputava foi o mais ouvido do ano, teve grande impacto na comunidade e aclamação com a crítica. Portanto, Kendrick perdeu para o concorrente mais forte.
Porém, nem o fato de Bad Bunny se tornar o segundo artista latino a ganhar Álbum do Ano – apenas ele e João Gilberto conseguiram o feito – tiraria o brilho da conquista do rapper norte-americano. Ganhar Gravação do Ano uma vez já é um feito extraordinário e ganhar duas vezes é ainda maior, visto que apenas 11 artistas conseguiram fazer isso na carreira; Kendrick Lamar se torna o 12º.
A vitória no Grammy 2026 ganha peso se levado em consideração que Kendrick se une a um grupo ainda mais seleto. Apenas ele, Roberta Flack, U2 e Billie Eilish ganharam essa categoria em dois anos consecutivos. Flack, homenageada no In Memorian deste ano, venceu em 1973 por “The First Time Ever I Saw Your Face” e 1974 por “Killing Me Softly with His Song”; U2 levou em 2001 por “Beautiful Day” e 2002 por “Walk On”; e Billie Eilish ganhou em 2020 com “Bad Guy” e 2021 com “Everything I Wanted”. Kendrick entra na lista com “Not Like Us”, em 2025, e “Luther”, em 2026.
Contudo, este não foi o único marco impressionante do rapper no Grammy de 2026. O cantor coleciona recordes da premiação mais importante da música norte-americana.
Este ano, Kendrick Lamar se isolou como o rapper mais vencedor da história do evento com 27 gramofones dourados enfileirados na estante. Nesta edição, foram mais cinco: Melhor Álbum de Rap com “GNX”; Melhor Performance de Rap com a faixa “Chains & Whips” do duo Clipse, na qual ele fez participação; Melhor Música de Rap com o trabalho em “TV Off”, ao lado de Lefty Gunplay; Melhor Performance de Rap Melódico com “Luther”; além de Gravação do Ano.
Dessa forma, em nove indicações, o rapper faturou cinco prêmios, sem levar em consideração que, na categoria de Melhor Performance de Rap, o cantor ganhou de si mesmo – uma vez que “Chains & Whips”, que ele divide com Clipse, venceu de “TV Off”, faixa também de Kendrick.
No recorte das categorias de rap, o artista é ainda mais hegemônico. Em 2025, o músico varreu, termo usado para quando alguém ganha todos os prêmios que disputa, levando para casa cinco Grammys e perdendo apenas em categorias em que venceu de si mesmo. Em 2026, ele não saiu vencedor em algumas das categorias que disputou. Entretanto, todas que tinham rap no título foram para a estante do californiano, natural do bairro de Compton em Los Angeles.
As conquistas do último domingo transformaram Kendrick Lamar no maior vencedor da história da categoria Melhor Álbum de Rap no Grammy, com quatro gramofones, fato que adiciona um recorde a mais para a coleção do rapper na premiação.
A discussão pós-Grammy é sobre o impacto da música latina na indústria norte-americana. No entanto, a ascensão do hip-hop, já muito comentada nos últimos anos, ganhou um novo capítulo na própria consolidação. Antes de Kendrick, apenas um artista de rap havia ganhado Gravação do Ano, Childish Gambino, com “This is America”, em 2019.
O próprio apresentador do evento, Trevor Noah, exaltou, no discurso de abertura da premiação, a posição do hip-hop como líder na estrutura da música atual e nominalmente posicionou Kendrick Lamar como figura importante para o reconhecimento do gênero dentro da indústria fonográfica.
Os prêmios são importantes para destacar o artista. Porém, eles são apenas uma consequência do grandioso trabalho que tem sido desenvolvido por Kendrick Lamar ao longo da própria carreira. Ao experimentar e inovar dentro de um gênero em crescimento, o músico eleva o rap, coloca na boca do povo e transforma o artístico em algo social.
O rapper que uniu todas as gangues de Los Angeles no mesmo palco e que teve o show de intervalo do Superbowl mais assistido da história, agora se torna o primeiro a ganhar duas vezes Gravação do Ano no Grammy, ainda de forma consecutiva para elevar a conquista. O músico faz história no rap e para o rap. Como os próprios artistas do gênero costumam elogiar: Kendrick Lamar é o rap.






