A cantora se estabelece como uma figura que, a partir do sentimento, alterou o rumo do R&B

Em meio à onda nostálgica das pessoas lembrarem como foi 2016 nas redes sociais, uma postagem se sobressaiu nas primeiras semanas de janeiro deste ano. A cantora britânica Jorja Smith lembrou que completa 10 anos desde que publicou “Blue Lights” no Soundcloud e mudou a própria vida para sempre. Porém, essa comemoração deve ser muito maior se considerar o quanto a ascensão da cantora para o pop fez bem à música R&B do Reino Unido.
Atualmente, Jorja lota arenas pela Europa e, em 2026, fará a segunda passagem pela América do Sul. No Brasil, serão três apresentações: um show solo em São Paulo, no dia 30 de outubro; uma performance na programação do Rock The Mountain em Petrópolis, que será realizado nos último final de semana de outubro e no primeiro de novembro; além da participação na lineup do Afropunk em Salvador, ainda sem data revelada. Todas estas datas seriam feitas em 2025, mas foram adiadas.
Consolidada no cenário musical internacional, Jorja Smith é um dos nomes mais importantes do gênero que ela canta. Apenas no Spotify, a artista acumula mais de 1 bilhão de reproduções, somando as músicas mais ouvidas que já lançou. Este feito é somente com dois álbuns e dois EPs lançados antes dos 30 anos de idade. Mas qual é a sua trajetória e o que explica tamanho sucesso?
Jorja Smith é um fenômeno por conta do amor que sente pela música e uma pitada de despretensão. Isso porque ela subiu a sua faixa de estreia “Blue Lights” no Soundcloud sem muitas expectativas antes de fazer as unhas. “Eu não tinha ideia de nada, apenas pura empolgação”, escreveu a artista no próprio instagram, no dia 19 de janeiro de 2026, quando comemorou o marco na carreira. Mesmo sem parecer que ia fazer tanto sucesso, a canção, que completa 10 anos de lançamento, chegou às rádios do Reino Unido antes mesmo de ser adicionada a qualquer plataforma paga de streaming.
Porém, o êxito nesse lançamento se dá pelo fato da cantora britânica carregar verdade, algo que o público sente falta na música atual. Jorja é uma artista que se mostra vulnerável e humana, mesmo com todo talento. Não só quando posta animada o aniversário de 10 anos de uma música, mas em toda a carreira.
As letras que ela escreve falam sobre emoções universais sem floreios, mas com muito lirismo e poesia. Tudo que ela sente está presente de alguma forma na arte que faz. Por isso, talvez, os nomes dos dois álbuns que lançou até então são sobre as dicotomias da vida – “Lost & Found”, perdida e achada em tradução literal, e “Falling or Flying”, caindo ou voando no português. Jorja sente o próprio trabalho à flor da pele e isso atrai o ouvinte que busca verdade no meio de uma imensidão de lançamentos quase diários.
A abordagem que a cantora encontrou para o R&B também é especial. Jorja se aproveita de uma bela voz para as canções potentes e emocionantes, mas não fez a carreira de baladas verdadeiramente do rhythm & blues. Tudo que a artista toca ganha um tempero individual – atualmente, muito mais popular no gênero do que quando ela começou a fazer.
Com mais síncopa, pegada de afrobeats, influência da música eletrônica, levada caribenha e até toques de hip-hop, a cantora consegue emocionar e fazer dançar com uma distância de poucas faixas de um mesmo disco. Se, na atualidade, nomes da música britânica como Raye e Olivia Dean têm os olhos e ouvidos do mundo é porque, em 2018, pouco antes de completar 21 anos, Jorja Smith já estava fazendo sucesso em nível mundial com um som que depois viria a ser pinçado para dentro da música pop.
Não foi por acaso que Jorja Smith já fazia shows internacionais antes da pandemia. O som que ela apresentava na época era uma prévia das tendências que invadiriam o mainstream pouco depois. Quem via a artista animada e vestida de Brasil, no festival Lollapalooza São Paulo de 2019, mal podia imaginar que a forma como ela fazia música seria dominante no pop inglês e mundial em 2026.
A cantora não é incontestavelmente a mais famosa da própria cena e, para muitos, nem é uma headliner de grandes festivais. No entanto, ela está na categoria: “artista favorita do seu artista favorito”. Desde muito nova teve o reconhecimento dos grandes, tendo faixas assinadas com nomes que vão de Kendrick Lamar a Vintage Culture e, aos poucos e da própria maneira, viu uma geração seguir uma proposta e um padrão que ajudou a estabelecer.
Jorja só se tornou essa estrela, ou pelo menos um modelo para novas artistas, porque iniciou na música muito cedo. Ela mesmo confessa que “Blue Lights” estava pronta três anos antes da ter vontade de publicá-la.
A artista já trabalhava nas composições e expressava os sentimentos dentro do próprio quarto durante a adolescência. Dessa forma, os hits com os quais ela começou a ganhar fãs pelo mundo foram pensados por uma cantora ainda menina, no auge dos 15 anos de idade.
Nascida na pequena cidade de Walsall, na Inglaterra, a artista é filha de um assistente social jamaicano que cantava em um grupo de neo-soul na juventude. Ela estudou piano desde os 8 anos de idade e sempre foi rodeada de música dentro de casa. Era um passo natural começar a fazer as próprias canções já que tinha talento, estudo e incentivo para isso. O fato explica o motivo de Jorja ser tão precoce em todas as etapas da carreira.
Contudo, jovens que estouraram no mundo da música antes da maioridade costumam ter o apoio de gravadoras ou serem apadrinhados por figurões da música. Este não foi o caso de Jorja Smith. Se a cantora é hoje referência, isso vem de uma mistura de talento, sorte e gosto do público. Independentemente das estruturas sonoras e das mudanças que propôs para o R&B, a artista canta o que sente, e ela sente muito. O que mostra que a arte ainda precisa da verdade para tocar o coração.






