Produção reúne nomes como Juliana Paes, André Lamoglia, Xamã, Mel Maia, Chico Diaz, Giullia Buscacio e mais

Os Peaky Blinders chegaram ao Rio de Janeiro — com samba, poder e sangue. Nesta quarta-feira (29), a Netflix lança “Os Donos do Jogo“, série que mergulha no universo do jogo do bicho e revela os bastidores de um império criminal que mistura luxo, lealdade e violência.
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A trama acompanha as disputas entre famílias que controlam o submundo das apostas ilegais no Rio, misturando personagens fictícios com elementos inspirados em fatos e figuras reais. Mas afinal — o que é realidade e o que é pura ficção em “Os Donos do Jogo”?
Criada e dirigida por Heitor Dhalia, a produção nasceu de uma extensa pesquisa. O diretor contou à BBC Brasil que a equipe realizou entrevistas com policiais, especialistas e pessoas ligadas ao universo do jogo do bicho para dar autenticidade à história. “É ficção, mas com um grau de verossimilhança bastante alto. Entendemos que para traduzir um universo complexo como esse precisávamos de uma pesquisa muito fundamentada”.
A história começa com o Profeta (André Lamoglia), um jovem herdeiro de uma família de bicheiros de Campos dos Goytacazes que decide expandir seus negócios para a capital fluminense. Lá, ele se infiltra em grupos rivais organizados como máfias familiares — e logo descobre que o poder tem preço.
Com nomes fortes no elenco como Juliana Paes, Xamã, Mel Maia, Giullia Buscaccio, Chico Diaz, Bruno Mazzeo, entre outros nomes de peso da teledramaturgia brasileira; e ambientação cinematográfica, a série promete explorar as engrenagens do poder como o Brasil raramente viu.
Na ficção, o jogo do bicho é controlado por clãs como os Guerra, liderados por Búfalo (Xamã), um ex-lutador de MMA que assume os negócios após se casar com Suzana (Giullia Buscaccio). Mas a harmonia dura pouco — Mirna (Mel Maia), irmã de Suzana, também quer o trono da contravenção.
Essas dinâmicas, por mais intensas que pareçam, não são apenas ficção. O sociólogo Daniel Hirata, da UFF, explica que a estrutura familiar é uma marca do jogo do bicho real: “O familismo é uma característica bastante marcante do jogo do bicho como grupo criminal […] inclusive para aqueles que não estão diretamente envolvidos nos negócios ilícitos ou com [o uso de] recursos ilícitos dentro da economia legal”.
No Rio de Janeiro real, a chamada “cúpula do bicho” ou “Liga Independente dos Bicheiros” — formada nas décadas de 1970 e 1980 — reuniu nomes como Castor de Andrade, Anísio Abraão David, Turcão, Capitão Guimarães e outros que dividiam territórios e lucros, além de mediar conflitos e financiar eventos culturais.
De cara, o público pode perceber as semelhanças entre os ‘Guerra’ da série e os Andrade da vida real. Assim como o personagem Búfalo herda o poder ao se casar com a herdeira do clã, Castor de Andrade também passou parte do império a seu genro Fernando Iggnácio — ambos protagonistas de uma disputa sangrenta que atravessou décadas.
A produção também ecoa o caso das irmãs Shanna Garcia e Tamara Harrouche, filhas de Maninho Garcia, outro nome lendário do jogo do bicho, cuja trajetória foi retratada no documentário “Vale o Escrito”, do Globoplay.
Heitor Dhalia, porém, garante que todos os personagens são fruto da ficção. “Pegamos todos os elementos [das famílias e figuras da realidade] e pusemos num caldeirão. Quando começamos a mexer, virou outra coisa. As pessoas vão fazer mil associações, mas não tem como bater nada com nada, porque tudo foi modificado”.
“Os Donos do Jogo” se propõe a inaugurar um novo gênero — o da “máfia tropical”. Dhalia diz que a ideia é mostrar as engrenagens do poder carioca mediadas por sangue, território e dinheiro.
O sociólogo Hirata reforça que a brutalidade retratada não é mero exagero dramático: “Muitas vezes os bicheiros são vistos como personagens pitorescos, simpáticos e folclóricos. O próprio Castor de Andrade ajudou a construir essa imagem mais ou menos inofensiva, mas na verdade eles não são. Eles atuam de forma predatória em diversos mercados e há uma série de homicídios relacionados a esses grupos”, diz.
E, assim como na vida real, a série mostra que o poder também é masculino — com poucas exceções. Em cena, personagens como Mirna (Mel Maia) e Leila (Juliana Paes) tentam romper a lógica patriarcal e conquistar espaço num império dominado por homens.
Leila Fernandez (Juliana Paes) também aparece como uma figura feminina em busca de mais poder. Na produção ela é casada com Galego (Chico Diaz), um bicheiro todo-poderoso da velha guarda, que tenta controlar a ambição da esposa.
O enredo também destaca a relação entre o jogo do bicho, o Carnaval e a política. Na ficção, Galego Fernandez financia escolas de samba e eventos populares — algo inspirado diretamente em figuras reais como Castor de Andrade, patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel.
Historicamente, o patrocínio do samba foi usado por bicheiros como forma de conquistar prestígio social e apoio comunitário, explica o cientista político Danilo Freire: Elas dão empregos a moradores, geram lucros para as comunidades, aumentam o turismo no Rio e, claro, acabaram virando símbolo nacional”, afirma o pesquisador à BBC, que citou ainda a fundação por banqueiros do bicho, em 1985, da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro).
Hoje, o jogo do bicho ainda mantém conexões com o poder público e até com forças de segurança. Uma investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) revelou, por exemplo, que em 2023 o bicheiro Rogério Andrade distribuiu R$ 502 mil em propina a batalhões da Polícia Militar e delegacias da Polícia Civil em apenas dois dias.
Por fim, outro ponto relevante da série é a ascensão das apostas digitais. Profeta, o protagonista, tenta lucrar revendendo bets para quem não domina os aplicativos. Na vida real, operações recentes da Polícia Civil, como a “Operação Integration”, mostraram que grupos de bicheiros já usam plataformas de apostas online para lavar dinheiro e manter seus negócios ativos.
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