Em seu terceiro álbum, Marina Sena mergulha de vez na diversidade de gêneros musicais brasileiros e explora o melhor da sua potência vocal

Entre 13 faixas em “Coisas Naturais”, Marina Sena atingiu um novo patamar que vai desde a autoconfiança entregue em cada canção, ao explorar diferentes gêneros musicais e fluir por eles naturalmente até o autodescobrimento vocal, no qual deixou a cantora mais próxima de vocais limpos e vibrantes. Em seu terceiro álbum, a cantora mostrou diferentes versões dela mesma – e todas deram certo.
Lançado na segunda-feira (31), “Coisa Naturais” é o compilado de um trabalho feito durante meses e que levou Sena a formar uma banda em uma casa construída no meio da natureza — uma espécie de acampamento musical. Ali, a artista desbravou novas sonoridades, expandiu seu alcance vocal, incluiu novos instrumentos e se debruçou em composições que definem seu estado de espírito, relações amorosas, desejos e vontades.
A primeira faixa, “Coisas Naturais”, surgiu de forma literal ao nome da música. Em coletiva de imprensa, a cantora explicou que enquanto escrevia, apenas citou “coisas naturais, coisas naturais” e, automaticamente, se tornou a faixa de abertura e o nome do projeto, pois, segundo ela, a representa: “Eu acho que é um nome que tem tudo a ver comigo”, disse. Nesse ponto, tanto a canção quanto o seu nome demonstram ser o que realmente são: a sensação de entrar no mar.
Em seguida, a famosa e já conhecida “Numa Ilha” segue o padrão da primeira. O single da era soa como muitos lugares do Brasil que são rodeados da natureza. A faixa com toques do gênero bachata entrega clareza, sabores marítimos e um desejo descomunal de viver um amor em uma ilha distante de todos.
Suas inspirações e referências ressoam fortemente durante o álbum. Marina Sena não deixa de acenar ao seu passado vivendo no interior de Minas Gerais, assim como não se permite deixar de lado as horas de dedicação ouvindo artistas como Gal Costa e Rita Lee, grandes artistas que aparecem como base para suas composições e formas de cantar.
Em “Anjo”, quarta música de “Coisas Naturais”, notasse a familiaridade com Gal e a presença notável de instrumentos. O rock ressurge como um bom remédio para quem deseja aflorar seus sentimentos e expor suas nuances. Sena faz com maestria e carrega nessa todo o aprendizado de preparação vocal que tanto praticou nesses últimos dois anos. A canção é uma potência, e das melhores, do seu alcance.
Já “Tokitô” se apresenta como a mais desafiadora do álbum e acelera um cenário pretensioso para a artista ao incorporar em sua discografia participações inéditas ao lado de artistas como a cantora ítalo-brasileira Gaia e a cantora e rapper portuguesa Nenny.
“Coisas Naturais”, de Marina Sena, se propõe a fazer com excelência um dos mais clichês e bem recebidos ritmos da música brasileira: a bossa nova. Durante todo o álbum, o gênero é o que mais se repete, mesmo que esse projeto tenha sido, de longe, o que mais explorou novos sons.
Em faixas como “Sem Lei”, “Sensei”, “Desmitificar” e “Ouro de Tolo”, a bossa-nova revela suas novas roupagens e a cantora deposita nelas uma confiança de que a injeção de novas sonoridades junto a ela cria um ambiente satisfatório e nenhum pouco enjoativo. Tem bossa nova para dar e vender, mas entre ela se escondem o rock n’ roll, a balada e a new bossa nova.
Aqui, é possível escolher entre quais os melhores ritmos Sena consegue se debruçar. No menu, há reggae, piseiro, pop-rock, samba e funl, todos devidamente bem encaixados sobre a proposta do álbum de ser natural e disruptivo.
Em “Lua Cheia”, a cantora retoma à infância e mostra que o forró a atravessa, assim como quando ouvia as canções de arrocha no norte de Minas. Sua identidade foi formada por artistas como Silvano Sales, que moldaram o DNA de sua música atual e afirmaram que fazer arrocha ou um piseiro é tão normal como a fórmula do pop, pois para ela, soa natural e a pertence desde criança.
A nona faixa, “Combo da Sorte”, é como estar em uma ilha. O reggae que a acompanha convida o ouvinte a entrar em transe e entender que a presença do baixo vai ser presente daqui para frente e a busca aqui é por um clima mais ameno e satisfatório, que possa fazer os outros apenas curtirem a faixa.

Outro ponto alto do álbum está em “Mágico”, que desponta como mais uma das inspirações passadas do rock brasileiro para a cantora. Nessa, a cantora se revela como uma experiente do rock e pronta para explorar cada vez mais esse campo.
Ao se encaminhar para o fim, “Doçura” é mais uma amostra de que as ambições de Sena para esse álbum foram altas, apostando no reggaeton. Na faixa com a banda Çantamarta, a mineira mais uma vez reafirma seu compromisso com a arte e mostra que o estilo brasileiro cabe em qualquer outra pegada musical e que o espanhol vai ser sempre bem-vindo em sua música.
Por fim, a música mais ousada até o momento e que faz jus ao seu nome. “Carnaval” é a simulação de um encontro em uma das maiores festas do mundo, que ao ouvi-la permite entrar em um mundo recheado do que o Brasil tem de melhor. Marina Sena junta funk e samba em uma só faixa e sai para desfilar em um trio a céu aberto, chamando todos para curtir esse som com ela.
“Coisas Naturais” é mais um trabalho expoente da brasileira que estreou com um álbum impecável, sem nenhum skip. Sua discografia é recheada de muita identidade e clareza com o público. Quando se ouve Marina Sena, é possível pensar em um tipo específico de música, mas ela consegue ir além e transitar por todos os gêneros musicais com maestria.
Nota: 8,5 / 10






