Oscar 2026: entre surpresas e cartas marcadas, o que fica da premiação

O Oscar frustrou o Brasil e o Tracklist analisa quais os pontos altos e baixos do maior evento do cinema norte-americano de 2026

Pedro IbarraColunasNotícias17 de março de 2026

"Uma Batalha Após a Outra"venceu seis Oscars | Foto: Warner Bros/Divulgação

A poeira baixou, a raiva passou, mas ainda dói pensar que nenhuma das cinco indicações que o Brasil tinha recebido reverteu em estatuetas para o país. O que fica do Oscar 2026 é uma cerimônia segura nas escolhas, mas arrojada politicamente. O Tracklist analisa os principais fatos do evento mais importante do cinema norte-americano do ano.

Brasil esnobado

A premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de 2026 ficará marcada para sempre na memória brasileira. Com quatro indicações para “O Agente Secreto” e uma indicação para o diretor de fotografia brasileiro, Adolpho Veloso, do longa “Sonhos de Trem”, o país bateu recorde ao disputar o maior número de estatuetas em um só ano.

No entanto, ao sair derrotado em todas as categorias, o que era esperança se tornou frustração. Em Melhor Filme era muito difícil, mas as categorias de Melhor Filme Internacional, Melhor Seleção de Elenco e Melhor Ator, com Wagner Moura, pareciam possíveis em alguma instância.

Melhor Filme Internacional foi a perda mais dolorosa. O representante brasileiro havia ganhado o Globo de Ouro e o Critics Choice Awards e veio até a metade da temporada como favorito. Contudo, nas últimas semanas de campanha, o concorrente norueguês “Valor Sentimental” cresceu muito e acabou abocanhando o Oscar. O longa de Joachim Trier já havia levado a melhor no Bafta, pouco antes do evento do último domingo (15/3), o que diminuiu o fator surpresa, mas ainda assim foi um balde de água fria para quem torcia pelo Brasil.

Em Melhor Ator a disputa era a mais aberta entre todas as categorias. Porém, Wagner Moura saiu atrás por estar atuando na língua portuguesa. Os votantes do Oscar não costumam premiar atores indicados por filmes que não são falados em inglês. 

O brasileiro viu Michael B. Jordan, de “Pecadores”, vencer a categoria que até dois meses atrás já parecia ganha por Timothée Chalamet, de “Marty Supreme”. Um fato surpreendente, uma vez que Michael se tornou o primeiro ator na história a vencer o Oscar apenas com uma vitória prévia na temporada de premiações, no Actors Awards. O intérprete dos gêmeos Fumaça e Fuligem em “Pecadores” se juntou a um seleto grupo formado por Sidney Poitier (1964), Denzel Washington (2002), Jamie Foxx (2005), Forest Whitaker (2007) e Will Smith (2022) como um dos seis homens negros a ganhar Melhor Ator no Oscar.

O mesmo fator linguístico que impactou na disputa de Wagner Moura privilegiou Sean Penn diante Stellan Skarsgård, que interpretou em norueguês, em Melhor Ator Coadjuvante; e diminuiu as chances de Inga Ibsdotter Lilleaas e de Renate Reinsve em Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Atriz, respectivamente, ambas que também estavam no longa norueguês “Valor Sentimental”.

Em Melhor Casting, primeira categoria nova da premiação em 25 anos, era difícil prever quem seria o vencedor, mas também não havia muita esperança de que os votantes entenderiam toda complexidade do trabalho de Seleção de Elenco do brasileiro Gabriel Domingues em “O Agente Secreto”. Os votos óbvios seriam para elencos mais estrelados e Cassandra Kulukundis, por “Uma Batalha Após a Outra”, acabou saindo com a vitória.

Outra derrota brasileira que abriu caminho para a história ser feita foi a de Adolpho Veloso em Melhor Fotografia. O representante do Brasil, mesmo cotado como possível vencedor, perdeu para Autumn Durald Arkapaw, de “Pecadores”. A ganhadora da estatueta foi muito celebrada por ter sido a primeira mulher a ser honrada nesta categoria na história do Oscar. Entretanto, o trabalho de Adolpho em “Sonhos de Trem” foi desmerecido com essa derrota. Ele era o que entregava mais complexidade, inventividade e competência estética entre os concorrentes. Provavelmente, esta foi a maior injustiça da noite.

Favoritos venceram

Justo ou não, este era o momento de “Uma Batalha após a Outra” e “Pecadores”. O primeiro saiu com as estatuetas de Melhor Filme; Melhor Direção, para Paul Thomas Anderson; Melhor Roteiro Adaptado, para Paul Thomas Anderson; Melhor Ator Coadjuvante, o terceiro Oscar de Sean Penn; Melhor Seleção de Elenco; e Melhor Edição. O segundo saiu com os prêmios de Melhor Ator, para Michael B. Jordan; Melhor Roteiro Original, para Ryan Coogler; Melhor Fotografia; e Melhor Trilha Sonora Original.

Os dois longas já haviam se estabelecido como os mais importantes da temporada de premiações e do ano de 2025. O Oscar serviu apenas como uma forma de coroar o que esses filmes fizeram e para marcar ambos na história do cinema norte-americano. 

Outro prêmio certo foi o de Melhor Atriz para Jessie Buckley, a protagonista de “Hamnet”. A irlandesa já tinha vencido tudo que era possível nos eventos pré-Oscar e foi para cerimônia só para confirmar uma temporada impecável. Estatueta muito merecida para uma atuação impactante. Porém, “Hamnet” merecia ter saído com mais do que apenas um Oscar. 

Política e arte se misturam

Por conta do momento histórico e geopolítico que o mundo vive, a cerimônia do Oscar foi marcada por discursos políticos. O anfitrião Conan O’Brien fez mais de uma piada sobre o assunto e o apresentador do prêmio de Melhor Filme Internacional Javier Bardem começou o discurso com a declaração: “Não à guerra e Palestina livre”.

Os filmes deste ano também tinham esse teor mais político. “Pecadores” faz crítica ao racismo histórico nos Estados Unidos, “O Agente Secreto” fala sobre memória e ditadura no Brasil, “Foi Apenas Um Acidente” trata das prisões por ideologia no Irã, “Sonhos de Trem” toca em temas de natureza e meio ambiente, “A Voz de Hind Rajab” conta uma dura história das guerras no Oriente Médio e Bugonia viaja sobre como os humanos não cuidam bem do planeta. Isso sem contar os documentários, todos com um tom bastante político.

Um dos mais engajados roteiros do ano foi o vencedor “Uma Batalha Após a Outra”. O filme reflete sobre a incompetência e a hipocrisia na revolução, fala sobre supremacia branca e gerou uma grande discussão sobre como os Estados Unidos são um país que beneficia estruturas preconceituosas. Contudo, o roteirista e diretor do filme Paul Thomas Anderson se esquivou de toda e qualquer pergunta de teor político durante toda a temporada e no Oscar chegou a responder uma delas com a frase: “não era para estarmos festejando?”. 

A arte também é um caminho para a consciência e o Oscar pode ser um palco para um discurso que busca um mundo melhor. Paul Thomas Anderson pode ter buscado não se comprometer, mas, ao fazer isso, abriu mão de transmitir uma mensagem ainda mais potente do que a do próprio filme: a de que é possível enxergar e mudar o mundo por meio do cinema.

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