Entrevista: Lucas Grill fala sobre o álbum “Grill O Rei do Deprê Chic”

O primeiro álbum solo do artista já está disponível nas plataformas digitais

Vitória RoqueEntrevistasNotícias13 de novembro de 2025

Foto: Cred. João Paulo Casalino

Em outubro, o cantor, compositor e guitarrista Lucas Grill apresentou ao público o seu primeiro álbum solo, intitulado “Grill O Rei do Deprê Chic”! O disco reúne experiências pessoas e referências artísticas que moldaram sua identidade musical.

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O projeto apresenta uma narrativa de dualidade – sob a persona de “Rei do Deprê Chic”, o eu-lírico passeia por melancolia e esperança; introspecção e extravagância, tristeza e sonho e altos e baixos emocionais. Tudo isso é embalado por músicas de diversos gêneros e uma estética marcante.

Recentemente, Lucas Grill cedeu uma entrevista ao Tracklist, onde detalhou o processo de criação de seu álbum, inspirações artísticas e mais. Confira a conversa abaixo!

Entrevista: Lucas Grill

Você divulgou, em outubro, o seu primeiro disco solo, “Grill O Rei do Deprê Chic”. Como você resumiria esse projeto?

“É sobre buscar o afeto, mas morrer de medo de intimidade. Umma história com início, meio e fim, onde o protagonista, ora herói, ora vilão passeia sempre pela dualidade: esperança e melancolia, tristeza e festa, beleza e terror, luz e sombra, Deprê Chic”.

Você revelou, anteriormente, que o disco é construído para contar uma história. Poderia falar um pouco sobre suas inspirações para a criação deste trabalho?

“Acho que ‘O Rei do Deprê Chic’ tem muito de “The Rise and fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars”. Não necessariamente em uma esfera sonora, mas como conceito e por essa qualidade camaleônica à la Bowie; onde, desde a concepção, tínhamos essa ideia motriz de que as músicas não deveriam se prender a um gênero musical específico, mas se moldar como cenários onde acontece a ação da trama”.

“O que daria o tom e a liga ao projeto seria o lírico, o personagem – O Rei do Deprê Chic -, o que ele fala e,  principalmente, de que maneira ele fala. Agora imagine Ziggy Stardust protagonizando a ‘Ópera do Malandro’, de Chico Buarque; adicione as noites exageradas de Cazuza;a melancolia de Cartola; o existencialismo de Belchior; a boemia de Nelson Gonçalves; as baladas de Roberto; o estrago do Amarante; o vencedor do Marcelo; o wild side de Lou Reed; a trova cool de Julian Casablancas, a loucura dos Beatniks; as estrelas de Oscar Wilde; a rima torta dos poetas malditos; um toque de Almodóvar, luzes de Wong Kar Wai; a praia, as noites do Rio de Janeiro, as garrafas, os cigarros e, por fim, os amores e os desamores. Pronto, temos ‘Grill O Rei o Deprê Chic’, o roteiro que conta a história de nosso ‘anti-herói’ dos olhos de estrela – romântico, boêmio, sonhador e que em algum lugar se sente como ‘Ziggy’ – um alienígena, um outsider, um louco tentando entender esse mundo esquisito e essa coisa de viver, amar e existir em tempos tão brutos”.

O projeto também acompanha uma estética marcante. De onde vieram as referências para essa parte mais visual?

“Primeiro, na parte relativa às cores, claro, tem muito de Prince e seu ‘Purple Rain’ [risos]. A ideia dessa paleta que passeia pelos roxos, rosas, vermelhos e azuis era a de emular as luzes noturnas, a tal noite Neon, como na Hong Kong vermelha dos filmes de Wong Kar-Wai,  ou no futuro distópico azul e rosa de ‘Blade Runner’. A busca era por uma noite cinematográfica, onírica, que não existe, mas que é real no coração daqueles que a estão vivendo”.

“Quanto à indumentária e os figurinos, a grande inspiração é em artistas como Jimmy Hendrix, de novo, Prince, Lenny Kravitz, na pompa e extravagância de cantores clássicos do rock n’roll como Chuck Berry e Little Richards, na elegância dos bluesmans e dos sambistas boêmios, nos ternos bem cortados dos crooners românticos, tudo isso girando em torno de uma inspiração central: o dandismo negro, afinal, é Deprê, mas é Chic”.

lucas gril
Foto: Cred. João Paulo Casalino

Para você, qual foi a faixa mais desafiadora na criação do álbum? E por quê?

“‘Poesia na Chuva’, com certeza. Quando mostrei ela para o Pedro [Stelling], era uma página em branco total. Acho que fora ela, todas as outras músicas que eu trazia já tinham algum elemento muito marcante, que naturalmente tomava esse lugar de ‘alicerce’ sob o qual o arranjo crescia em torno – fosse um dedilhado, uma batida, uma levada. Já ela não tinha nada, era só uma música com uma estrutura esquisita, cheia de quebras, sem refrão, quatro acordes bobos que se repetiam eternamente e só andavam para frente, sem quase não repetir nada. Eu a tocava de forma bem genérica no violão, totalmente perdido e olhava pro Pedro, com um semblante que podia ser traduzido perfeitamente pelo nome do disco novo do Rubel:  “Beleza. Mas agora a gente faz o que com isso?” [risos]. A única coisa que sabia era que tinha que ter o barulhinho de chuva, e que eu queria um ‘hi hat’ parecido com o de “Pegando Leve” do Terno no começo da música”. 

“Lembrando agora, nem sei muito bem como saiu, mas foi saindo, dessas coisas mágicas que a musa música nos proporciona de tempos em tempos. É doido, eu ouço hoje e fico pensando: ‘Da onde a gente tirou essas maluquices?’. Apesar de não ser minha favorita do disco, levando em conta o que era, o que tínhamos de material bruto, e o resultado final, a vejo como nosso maior trunfo no quesito produção. Essa faixa, diferentemente de outras da tracklist, realmente nem me dá vontade de fazer em um setup acústico, a composição perde muito sem a instrumentação, ela cresce exponencialmente com o arranjo, ele dá uma luz, uma vivacidade, um fleur que a canção originalmente não tinha”.

E, se pudesse escolher uma canção preferida neste projeto, qual seria?

“‘Moldura Quebrada’ é a minha queridinha. Eu tenho um fraco por baladas e uma grande obsessão e ambição em compor ‘a balada pop perfeita’. Talvez o Paul já tenha conseguido o feito com ‘Yesterday’, mas a inalcançabilidade da coisa é justo a graça: uma vida inteira compondo baladas. Acho que deve ser das vezes que cheguei mais perto do meu objetivo [risos]. Adoro cantá-la e tocá-la nos shows, é das canções que gosto de tocar sozinho em ‘autoseranatas’. Ela realmente me orgulha como compositor; e neologismos à parte, é do tipo de música que eu ouviria e diria ‘Poxa, queria ter feito essa’. Pois é, essa eu fiz”!

Agora, com seu álbum de estreia solo já divulgado, quais são seus próximos passos como artista?

“O processo de gravação desse disco foi muito longo, foram anos da minha vida gravando, mas também entendendo qual som eu queria fazer, sobre o que eu queria falar, que tipo de artista eu queria ser. Em algum lugar, foi um grande laboratório onde eu me permiti fazer, refazer, experimentar, testar e buscar minha verdade artística. Acho que deu certo, que me achei e saiu exatamente do jeito que eu queria”.

“Depois de todo esse tempo todo em estúdio, acho que é o momento de materializar essa visão e espalhar o ‘Deprê Chic’ no mundão. Vou anunciar um show de lançamento em breve! Agora é isso, tocar, viajar, festivais, estrada, rua, estar com meus pares, viver a música mesmo, de forma mais tátil e menos virtual; no final a gente faz o que faz por esse momento, o palco, a troca, o olho no olho. A magia da coisa acontece toda no ao vivo, acredito que seja a resposta ante a essa hiperconectividade que afasta”. 

“Tenho também uma grande vontade de fazer um ‘ao vivo’ do disco – ‘Deprê Chic Session’. Soa bem, quem sabe? [Risos]. Quero uma vibe parecida com a das sessions dos Garotin ou do ‘Violeta’, do Terno Rei, mas adicionando meu ‘dendê’, uma pegada bem cinematográfica, uma locação classuda com luzes roxas evocando a noite Neon – bem Deprê Chic”!


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