Por trás dos bastidores do evento, Fabiane Pereira comenta o que a levou a idealizar o festival

Idealizado pela jornalista Fabiane Pereira, o Festival Papo de Música começou nesta quinta-feira (25) e reúne jornalistas, profissionais do mercado e personalidades para debater a música popular contemporânea.
Com quatro dias de programação, o evento contará com cinco painéis por dia, totalizando 20 atividades e mais de 80 profissionais envolvidos.
Esta 2ª edição do festival segue até domingo, 28 de setembro, e o Tracklist conversou com a idealizadora para conhecer mais sobre a programação e refletir acerca do atual momento da música brasileira.
O festival acontece no Grande Salão da CAIXA Cultural São Paulo, com entrada gratuita.
LEIA TAMBÉM: Lançamentos da semana: Doja Cat, Zara Larsson e mais
Por que é importante ter um festival sobre música, e não apenas de música?
Porque eu acho que, quando a gente fala de fazer um festival sobre música, a gente está falando de todo um ecossistema, de toda uma cadeia produtiva que trabalha em prol da música.
Quando a gente faz um festival de música, ele fica muito restrito a promover os artistas, que, claro, são a ponta do iceberg dessa cadeia produtiva. Mas a ponta do iceberg, pra se sustentar, precisa de toda uma base, né?
E os jornalistas musicais, os comunicadores, os jornalistas de cultura, todos nós fazemos parte desse ecossistema. E, muitas vezes, somos o pilar, o primeiro pilar, e em muitos casos até o pilar fundamental da sustentação da carreira de alguns artistas.
Estamos na era digital, e a gente sabe que os artistas hoje priorizam muito as plataformas digitais. Mas as mídias, sejam elas tradicionais ou digitais, como é o caso de sites, podcasts etc., também oferecem ao artista chancela, visibilidade e validam a carreira dele.
Como a curadoria do festival foi pensada para refletir o atual momento da música brasileira?X
A curadoria do Festival Papo de Música 2025 foi encabeçada por mim, mas ela foi pensada por muitos dos meus pares. Ela veio sendo pensada durante mais de um ano, através de várias conversas, de várias trocas, de várias queixas, de várias reclamações, de várias coisas que eu assisti, de várias coisas que eu presenciei. Ela foi pensada também porque eu stalkeio muitos dos meus coleguinhas.
Eu sou fã, admiradora, fiel e real do trabalho dos meus colegas de profissão. Então, ela foi pensada muito a partir do que eu consumo, da produção de conteúdo que os meus colegas fazem. Também foi pensada muito tendo como norte a frase de Letiéres Leite: “toda música brasileira é afro-brasileira”.
E o momento atual da música brasileira prova, mais do que nunca, que tudo que a gente tem, seja no mainstream, seja de nicho, tem uma raiz afro-brasileira. Então, a curadoria desse ano foi pensada para promover essa raiz afro-brasileira. Letiéres Leite dizia que toda música brasileira é afro-brasileira, inclusive o piano de Tom Jobim.
Qual é a importância do jornalista cultural na mediação entre artistas e público?
Essa pergunta é de fundamental importância, e foi por causa dela que eu senti a necessidade de criar um festival que promovesse os meus coleguinhas de profissão. Ou seja, os jornalistas culturais e os jornalistas musicais.
Porque os jornalistas são, ainda hoje, em 2025, validadores e chanceladores da arte, da música de muitos artistas. Claro que nenhum artista hoje depende de nenhum jornalista para ter seus shows cheios, para ter sua música ouvida. Mas, para que um artista não seja nichado, para que ele se torne verdadeiramente popular, conhecido de norte a sul, a mediação de um jornalista, seja ele musical, seja ele cultural, é de fundamental importância.
Estar presente nas mídias tradicionais, como o rádio, a televisão e os jornais impressos também, é fundamental para que ele não seja nichado, para que alcance um maior número de pessoas. Daí a importância dos profissionais que, como eu, trabalham todos os dias do ano para levar e promover a música para o ouvinte, para o leitor, para o espectador.
De que maneira o jornalismo musical pode influenciar o mercado e ampliar o repertório da audiência?
Olha, nós viemos de anos muito sombrios para o jornalismo como um todo. Nós tínhamos um presidente que descredibilizava e ridicularizava a imprensa como um todo. E o jornalismo cultural é o patinho feio do jornalismo.
Infelizmente, as pessoas dão muito mais valor se você é um jornalista de política, se você é um jornalista de economia, do que se você é um jornalista cultural, não entendendo a importância que o jornalista cultural tem na formação de cidadania, na ampliação de escuta.
Quando a gente amplia a nossa escuta, a gente diminui preconceitos, a gente diminui a capacidade do outro de não entender notícias.
O jornalismo cultural pode ser um grande aliado no combate à fake news, porque ele é um jornalismo que instiga a pessoa — seja ele o jornalismo radiofônico, o televisivo ou até mesmo o jornalismo impresso. Então, o Festival Papo de Música propõe essa valorização e essa renovação do papel do jornalista cultural, de modo que o público geral entenda a importância do nosso trabalho.
É um trabalho fundamental para a formação de cidadania. É um trabalho fundamental para a democratização dos acessos. É um trabalho fundamental para ampliar escutas e, automaticamente, para ampliar um entendimento da realidade.
Em tempos de redes sociais e algoritmos, qual ainda é o espaço do jornalismo cultural tradicional?
A mídia tradicional, além de validar e chancelar, amplia o alcance. As redes sociais e os algoritmos nicham, eles buscam audições que sejam muito próximas daquela música que está sendo feita, daquele artista que está promovendo aquela música.
O rádio e a televisão, não. São canhões de audiência. Falam para um número muito significativo de pessoas, e pessoas que têm uma audição muito eclética.
Hoje, a gente vê gerações que são pouco ecléticas, porque ouvem música muito enviada pelos algoritmos. E a minha maior batalha é para que a gente não tenha uma audição algorítmica, para que a gente não trabalhe para o algoritmo, para que a gente burle esse sistema que os algoritmos acabam impondo. Que a gente seja mais amplo, mais diverso, porque essa é a música brasileira.
Ao reunir reflexão crítica e entretenimento musical, o que o público pode esperar ao participar deste evento?
Olha, o público pode esperar um evento que foi feito a partir de afetos. E afetos não só no sentido sentimental, mas no sentido de afetar o outro. Serão 20 atividades ao longo de 4 dias, e todas essas atividades reúnem profissionais que trabalham com muito afeto, que colocam sua vida, sua credibilidade e sua mão de obra à disposição do outro. Seja esse outro um ouvinte, um espectador, um leitor ou um artista.
Então, o público que for ao Festival Papo de Música vai conseguir compreender, verdadeiramente, o trabalho de um profissional que promove cultura dentro desse ecossistema brasileiro. A cultura brasileira é o nosso maior patrimônio. E a música é o norte, é o farol da nossa cultura. A música brasileira educa.
Nós somos um país de poucos leitores, né? Então, o papel da música brasileira é fundamental para a educação, para a reflexão da nossa sociedade.
Por isso, quem estiver no Festival Papo de Música vai sentir, tenho certeza, como outras plateias das edições anteriores já sentiram, que é um festival que promove uma troca muito grande. Não só com profissionais atentos ao Brasil de hoje, à cultura de hoje, ao que se consome e se produz hoje, como também com artistas atentos a essa realidade.
Quer acompanhar as principais novidades de música, cinema, streaming, premiações e cultura pop em tempo real? Siga nossos canais no Instagram e WhatsApp.
Também estamos no TikTok, Twitter (X) e Bluesky. Siga o Tracklist na sua rede favorita e acompanhe tudo que está em alta no entretenimento!






