Chaves x Quico: entenda o conflito resgatado pela série “Chespirito” da HBO Max

Nem só de risadas viveu os bastidores do aclamado "Chaves". E a nova série da...

Andressa CerqueiraNotícias10 de junho de 2025

Foto: Reprodução/Youtube

Nem só de risadas viveu os bastidores do aclamado “Chaves“. E a nova série da HBO Max, “Chespirito: Sem Querer Querendo“, lançada na última quinta-feira (5), não se limita ao lado bom daquela época. A produção mergulha nos bastidores do programa que marcou gerações — incluindo a treta clássica (e nada resolvida) entre Roberto Gómez Bolaños, o criador e intérprete do Chaves, e Carlos Villagrán, o eterno Quico, que deixou o elenco em 1979.

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Na nova versão da história, quem dá vida ao bochechudo da vila é o ator Juan Lecanda, que conversou com exclusividade com o Splash sobre o desafio. E ele foi claro: a série não está ali para romantizar os bastidores. “Existia ciúme profissional, tensões e atritos. Precisávamos mostrar isso para não parecer uma encenação vazia”, afirmou.

Inclusive, a simples presença de Quico na série já gerou barulho. Isso porque Carlos Villagrán, assim como Florinda Meza — a Dona Florinda da ficção e viúva de Bolaños na vida real —, não participou da produção. Ambos foram representados com nomes fictícios. No caso de Villagrán, nasceu o Marcos Barragán.

Relembre a briga entre Bolãnos e Villagrán

Na série original, Chaves e Quico viviam em conflito: um era pobre, morava em um barril e sonhava com sanduíche de presunto; o outro, mimado pela mãe, esbanjava presentes e quitutes. O embate cômico em cena, no entanto, refletia atritos que transbordavam para a vida real — e que foram parar até na Justiça.

Um dos fatores mais comentados (e jamais completamente esclarecidos) foi o suposto triângulo amoroso entre Villagrán, Bolaños e Florinda Meza, que viveu um relacionamento com o criador de “Chaves” de 1977 até sua morte, em 2014. Segundo Villagrán, Meza teria dado em cima dele insistentemente no início do seriado — a ponto de ele ter pedido ajuda a Bolaños para lidar com a situação. A atriz evita tocar no assunto: em 2023, declarou que falar sobre isso seria “promover a imagem de alguém que não vale um centavo”.

Villagrán, por sua vez, oscilou nas versões. Em 2015, disse que o envolvimento foi breve, que não causou dano a ninguém e que “nem vale a pena falar disso”. Mas a convivência no set já estava desgastada há tempos.

Em 1979, sete anos após a estreia de Chaves, o intérprete de Quico decidiu sair do programa. Alegou inicialmente que queria seguir carreira solo com o personagem. Anos depois, porém, acusou Bolaños de ter sabotado seu espaço por pura inveja. Bolaños negou — e contou com o apoio de outros colegas do elenco, que reforçaram que a decisão foi unilateral.

Villagrán tentou levar Quico para um novo programa na Televisa, mas se recusou a creditar Bolaños como o criador do personagem. Resultado: levou um processo e perdeu. Emilio Azcárraga Milmo, então presidente da emissora mexicana, até tentou apaziguar, oferecendo um programa próprio para Quico — desde que Bolaños supervisionasse. Recusado. Com isso, Villagrán foi banido da emissora e impedido de usar o personagem no México e em parte da América Latina.

A solução veio com um truque de grafia: em 1980, ele lançou o programa “Kiko Botones” na Rádio Caracas Televisión, da Venezuela. O mesmo personagem, só que com “K”. Permaneceu no país até 1987.

Apesar dos altos e baixos, Villagrán chegou a participar de uma homenagem a Bolaños na Televisa — mas a trégua durou pouco. Dias depois, voltou a criticá-lo publicamente. Em 2013, disse que os problemas de saúde enfrentados por Bolaños eram “castigo divino” por sua ganância. Quando o colega morreu, no ano seguinte, lamentou não ter feito as pazes ainda em vida.

Como a série de “Chespirito”, da HBO Max, retrata a rivalidade entre Chaves e Quico

Com novos episódios às quintas-feiras, “Chespirito: Sem Querer Querendo” deixou claro que não teria autorização oficial de Villagrán para usá-lo em cena — daí a criação de Marcos Barragán. E como manda o figurino jurídico, há aviso na abertura de que qualquer semelhança com pessoas reais é “mera coincidência”.

Só que nem é preciso muito esforço para perceber: o personagem vivido por Juan Lecanda é um Quico repaginado, retratado de forma caricata, explosiva e egocêntrica. Um espelho do que as rusgas antigas apontavam — agora dramatizadas sob o olhar de Bolaños.

Ao Splash, Lecanda reconheceu que a abordagem da série poderia gerar reações. “Não sei como os filhos de Carlos Villagrán vão reagir. Acho que não cabe a mim responder sobre isso. É uma questão deles”, disse. “Fiquei emocionado por abordar o personagem com tanta verdade, honestidade e responsabilidade”.

Sobre o processo de preparação para o papel, o ator contou que fez uma imersão minuciosa no universo do seriado. “Estudei entrevistas, programas antigos… e fui somando tudo ao que já tinha de semelhança física com o personagem, que não é mérito meu”, disse. “Tenho um bom ouvido e sou muito atento, então mergulhei nas características físicas e vocais dele. Precisei acertar até o tom mais agudo da voz”.

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