21 de outubro de 2014 por Lorrany Farias.

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Existe um milhão, ou talvez infinitos motivos pra você ouvir Rodrigo Amarante. Talvez um dos motivos óbvios é apenas pelo simples fato dele ser um ex-Los Hermanos. A verdade é que Amarante por si só, nos revela uma infinidade de possíveis relações com o interior e exterior de quem vive anestesiado por cada uma de suas composições.

Uma inteligência além de nossos instintos, uma calmaria que pode ser sentida na pele e uma reverberação daquilo que nenhum outro ser humano pôde sentir em seus trabalhos antigos, em plena consciência; são apenas algumas sensações que podemos expor à qualquer mero mortal e de imaginação não fértil, quando nos submetemos de bom grado a ouvir o álbum Cavalo, que vem circulando mundo afora e invadindo a alma de tantas outras identidades que podemos questionar lendo um livro, sonhando, vendo um filme… Mas nenhum caminho será tão mais profundo que a exploração desse álbum que fala por si só – em nossa própria visão – o que somos, devemos ser ou daquilo que perdemos no caminho, seja de nós mesmos ou do outro.

 

Na incessante busca pelo descobrimento, entendimento e desconstrução do que já existe e do que já nos invade na maior e melhor forma pura possível, conversamos com o propagador de tantas sensações que em nossa normal percepção das coisas, não podíamos enxergar e nem sentir. Confira:

1 – A canção “Irene”, juntamente com “Tardei”, como demais outras do álbum, são um absoluto sucesso para todos aqueles que ouvem o CD. Em todos, praticamente surgiu um “amor à primeira vista” por cada uma destas canções. Em que ou em quem essas músicas, em particular, foram inspiradas?
Rodrigo: É uma maravilha ouvir isso, obrigado pelo elogio. Infelizmente não há resposta exata para sua pergunta, nenhuma das músicas foi inspirada, como se diz, em ninguém ou nada em particular. São, essas duas por exemplo, expressões extraídas de pensamentos ou memórias que falam da viagem que fiz, da busca de uma desidentidade, do isolamento que me desse a chance de ver a tudo de outro ângulo, de me des-hipnotizar da ideia que fazia eu através do espelho e dos outros a minha volta, do que sou, devo ser, posso ser. Essas são duas músicas que falam de maneiras diferentes, com foco diferente, da busca de algo desconhecido, uma possibilidade que pra mim termina na palavra e as duas canções revelam o que a princípio era pra ser método e acabou virando musa, a busca em si que virou fim, a palavra terminou por falar de si, de mim e, com sorte, de ti. Tardei é não a celebração da chegada mas a canção que se cria ao caminhar projetando a chegada, a música que o viajante inventa pra continuar firme na passada até encontrar aquilo que busca e Irene a realização daquilo que foi deixado pra trás mas nem por isso abandonado.

2 – Em 2013, foi produzido o documentário “Los Hermanos: Esse é só o começo do fim da nossa vida”. Como foi essa experiência?
Rodrigo: Foi uma experiência estranha como ser documentado deve ser mas que entendi fazia parte do processo a que resolvi me submeter, o de questionar a identidade. Fazer um primeiro disco solo é uma coisa violenta porque é, mesmo eu não querendo ou tendo essa intenção, uma espécie de definição ainda que temporária de uma identidade, um auto retrato, e se submeter a ser documentado é também isso, uma tentativa de revelar um olhar absoluto ainda que claramente incompleto.

3 – Em outras entrevistas, você relatou que o título do seu álbum, Cavalo, faz referência a um termo empregado em religiões como o Candomblé e a Umbanda. Também, na sua página oficial, ao apresentar o álbum, num texto em inglês, você finaliza suas declarações com “Saravá”, outro termo referente a essas religiões. De que outras formas essas correntes espirituais citadas influenciam você e o restante do álbum?
Rodrigo: Não sou religioso mas sou um incessante investigador do invisível, do improvável, do invisível e do fantástico. Aprendi na carne que há mais pra além dela, muito mais, e entendo que a força imensa do pensar, do querer, do desejar tem papel real no mundo físico então a minha escrita é cheia desses pensamentos, dessa investigação, desde o princípio. Na verdade eu cheguei nesse nome antes de ver que era mais uma vez um dica de que há pra além da consciência uma parte que se confunde entre interno e externo. Há palavras que me parecem transitórias e que significam essa coisas que são difíceis de apreender, espírito, deus, energia e por isso eu não as uso na escrita mas de uma forma ou de outra tento, dando voltas em torno delas, as definir, as compreender. O disco recebeu esse nome primeiro porque entendi que me vejo como duplo, e digo eu mas imagino muitos de nós. Pra mim isso ficou claro quando me separei da minha terra e com isso enxerguei uma outra possibilidade de mim que observava aquele que vinha sendo. Me expressar em outra língua e observar as diferenças de espírito, senso de humor, eloquência e por isso identidade, me deu essa noção porque eu me observava sendo essa diferença. Assim esses dois lados, um racional, pragmático, correto e o outro emocional, místico, passional e instável quando juntos me pareceram como o cavalo e o cavaleiro que quando entram em simbiose invertem suas funções de guia e guiado pra eventualmente alcançar ser um só, que é a utopia de des-hipnotização que eu procuro na escrita, e na vida também, mas é mesmo uma utopia, uma direção. Só depois disso eu vi que a coisa do mundo espiritual de cavalo ser aquele que recebe o espírito encaixava e eu adorei o paralelo, fez muito sentido porque fala da relação do interno com o externo também, seja do corpo ou do ego, da psique.

4- Em relação à turnê europeia, como está sendo a resposta do público em relação à “passagem do ‘Cavalo’”?
Rodrigo: Muito boa, tem sido uma grande surpresa e uma maravilha, uma recompensa. Finalmente conhecer as pessoas ao redor do mundo, de origens diferentes, que gostaram do que escrevi é um prêmio. Eu realmente não tinha a menor ideia de quem ia gostar desse disco quando terminei e sabia que era um desafio lançar um disco com três (ou quatro) línguas, com uma estética muito difícil de definir e achei que isso era uma coisa interessante, que queria muito fazer, que espelhava a minha condição de estrangeiro e poder finalmente ver a quem e onde isso chegou, esgotar shows em lugares improváveis como Oslo, Montpellier, Barcelona ou Londres, NY e Paris é mais do que podia imaginar.

5 – A passagem pela Europa, com certeza, deve ser inspiradora para novas canções e novos projetos. A Europa inspirou você na composição de alguma música?
Rodrigo: Mas claro, a Europa é muito coisa, são muitos lugares e línguas e culturas muito diferentes e cada vez que vou e conheço mais gente descubro novas cidades dentro de cada cidade, novas perspectivas sobre cada uma. Nesse disco, que eu me lembre agora, a única feita lá foi I’m Ready que eu escrevi em Berlin enquanto me recuperava de um jetleg que parecia não ia passar nunca.

6- Você continua compondo para um “possível” próximo álbum ou há algum projeto que esteja próximo?
Rodrigo: Continuo escrevendo músicas novas e vou fazer um outro disco solo antes de fazer outros. É esse o plano mas as vezes as coisas mudam e eu sempre respeito muito quando o vento muda de direção então prometer não posso. Há outras ideias sempre, amigos que propõem empreitadas mirabolantes, quem sabe embarco em alguma?.. Vamos ver.

7 – Percebe-se que em cada parte do seu disco, apesar do apoio e ajuda de algumas pessoas, você vem fazendo basicamente tudo sozinho. Você sente que trabalhar assim é mais fácil ou você acredita que com uma equipe, uma banda, é melhor em todos os processos e aspectos?
Rodrigo: Não há melhor ou pior, são processos muito diferentes e eu não prefiro ou ao outro. Tenho saudade de fazer arranjos tocando junto com outros músicos como era no Los Hermanos ou Little Joy ou com o Devendra mas como fiz isso muito agora sinto que ainda tenho o que escrever só, criar cada parte do arranjo de cada vez. É muito bom poder dar tempo à algumas ideias, poder desenvolver algo que se ouve na mente mas que até virar uma parte concreta leva treino ou estudo. Mas também muitas vezes as melhores ideias são as mais espontâneas, as que vem sem muito pensar então pra isso ter uma banda de instrumento em unho é muito bom. Acho que no próximo vou fazer um pouco de cada.

8 – Li em uma matéria sua para um site brasileiro que você disse que “Qualquer obra deve ser um espelho estranho, um espelho imprevisível que vai refletir em uma coisa que eu não sei o que é”. Você acha que, tanto no seu público brasileiro como no público estrangeiro, você/sua obra tem servido de espelho? Quero dizer, você acha que sua música tem alcançado o reflexo “do que você não sabe o que é”, mas que de alguma certa forma era esperado e imaginado por você?
Rodrigo: A grande beleza de escrever é não saber nunca onde vai parar a escrita no sentido fundamental e ainda o que é que ela se tornou lá. Eu me sinto sortudo porque como músico posso subir no palco e apresentar as músicas, olhar pra cara de cada um e ver o que está se passando, sentir muito do que a música está fazendo e as vezes até conversar com uns e outros que me dão ideia do que uma ou outra música representam pra eles mas, no fundo, nada disso é completo ou definitivo. O que chamo de espelho imprevisível é aquilo que te pode dar uma nova perspectiva, por mais sutil que seja. Que te faz ver não a si como se entende que se é mas o próprio olhar, a forma como se vê. Esse espelho é capaz de mudar a perspectiva sobre outras coisas a sua volta, tudo, ou muito pouco, mas ainda a perspectiva de si. Perspectiva é o que há de mais rico porque é o que gera a habilidade de ser mais tolerante, amplia a capacidade de alguém se colocar nos sapatos dos outros, de cogitar outras possibilidades, pontos de vista, de aprender que estar certo é uma ideia transitória e por aí vai. O que quero é contar a história do outro pra chegar a amaciar ainda que um pouco a carne dura do coração, do estômago, das costas, dos dedos da mão que se puder abrir pelo menos um bocado mais, já é grande sucesso. Saravá!

 


Texto e edição: Lorrany Farias

Entrevista: Wendell | Lorrany Farias

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